A sabedoria das nuvens

Tem vezes que só as nuvens me acalmam. Vê-las é meu único alívio, como se me aconchegassem entre algodões o coração de súbito cristal. E assim me enterneço e acalmo. Porque as nuvens ensinam que tudo passa. Sim, nenhuma dessas múltiplas formas se fixará no céu como um emblema. E nisso está sua beleza. Não importa se a dor foi escrita na água, na areia ou na pedra: tudo é nuvem e há de passar.

“Tudo é nuvem”, repito para mim, como um aluno decora sua lição. Mas é tão fácil esquecê-la, porque me agarro às minhas dores como se defendesse um patrimônio. Que tolo! De um fiapo de nuvem construo tempestades e posso fazer do céu azul mero prelúdio de mau tempo. E nem me queixar devia, porque minhas dores não estão lavradas em pedra. São mágoas, pequenas frustrações, ressentimentos – coisas que não me esqueço porque ainda me apego a isso como se fosse eu. Mas o que sou eu quando disso me esqueço? Nuvem…

Uma nuvem de calças, como queria Maiakovsky, o imenso Maiakovsky, onde tenho me refugiado como um barco em busca de reparos. Como no passado acontecia com nós dois, antes de sermos o que hoje somos (sim, como se nos anunciássemos aos poucos um ao outro inevitáveis) tem acontecido comigo e Maiakovsky de nos encontrarmos sem querer nos lugares e horas mais inesperados. Já nos conhecíamos, é certo, mas nunca tive com ele muita intimidade. E, de repente, ele se torna constante como um amigo ou um irmão. Mesmo nisso, como em tudo mais, há também muito de você, porque o primeiro presente que você me deu foram uns versos dele que diziam:

Ressuscita-me,
nem que seja porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo cotidiano!

“Tudo é nuvem” – se eu pudesse soprar essa sabedoria simples no coração das vítimas da violência mais infame, aquela que o mais forte impõe sobre o mais fraco e nele deixa impressa uma dor que só a muito custo se apaga. Se a inefável magia das palavras pudesse reverter primeiro a pedra em carne e depois finalmente em nuvem… Sim, se eu pudesse resgatar ao menos um da dor a que se sente acorrentado, não terá sido em vão esta crônica, nem essas nuvens que desenham no ar maciamente sua lição: “Isso também passará.”

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Aos amantes das nuvens, o site da Sociedade dos Apreciadores de Nuvens.