Presente de aniversário

Mais uns dias e será seu aniversário. Hora de me perguntar, como todo ano, o que lhe dar de presente. Sempre, sempre penso em livros. Penso em outras coisas também: jóias, vestidos, jantares, passeios. Mas jamais dispensarei os livros. Porque são como pedaços de mim ao alcance das suas mãos e dos seus olhos. Um modo de estar sempre perto, de ser para sempre, de partilhar dessa precária eternidade dos livros que tanto me comove. Um olhar discreto seu para um ponto exato na estante e lá estarei eu, tão íntimo e tão secreto.

Outro dia, fiquei idealizando um livro só de crônicas minhas escritas para você. Gosto de imaginar que jovens apaixonados de gerações futuras lerão um dia essas crônicas em busca de palavras que dêem forma ao indizível amor que sentem; e então, por seus olhos, nós de novo ganharemos vida, esta vida, como personagens encarnados em atores. Sim, eu e você emprestaremos a esses jovens embriagados e atônitos um tanto do ouro que criamos desde a lavra bruta à delicada ourivesaria, dia após dia, sempre com paixão, mesmo quando nos faltava a esperança.

Todo amor é ouro. Por isso, não é fácil o amor. Por isso morre-se de amor dizendo “eu sou poeta e não aprendi a amar”. Mas amar não se aprende; amar ensina. Ou ilude. Nos faz mais fortes ou nos mata. Porque amor é sina: estamos condenados ao amor como à vida. Tudo é amor: os sentimentos todos são modos diferentes do amor que nos consome para alimentar as estrelas.

Eis enfim o que eu tenho para lhe dar: ouro. O ouro árduo que garimpo e esculpo. Nosso ouro que nos torna mais ricos. Com ele, vamos banhando os objetos mais insignificantes e cotidianos; e dele fazemos jóias e correntes. Não nos poupamos porque a secreta alquimia dos amantes se encarregará de multiplicá-lo.

Mas mesmo todo o ouro com que lhe enfeito não poderá torná-la mais preciosa. Ouro? Você merecia mais. Virá com o tempo, que dá forma ao ouro e lhe aumenta o valor.