A verdade das coisas

É, eu acho que há mesmo um mistério em cada fato. Um mistério que confere a cada fato urgência e delicadeza, ainda que cada fato por si mesmo não seja mais do que um fiapo de nuvem, um fiapo de nuvem que se junta a outro fiapo de nuvem e mais outro e vai traçando no ar um desenho que, de um momento para outro, de ovelha pode tornar-se a cara do seu avô ou um coro de anjos dançando no céu. Essa plasticidade da vida é o fundamento positivíssimo dessa desimportância de todos os fatos: tudo sempre pode ser de outro modo. É ela que oferece o solo fértil para a vontade, do ato mais simples ao milagre. Para que amanhã você acorde e diga: “Não mais!”.

Cada fato se abre para uma infinidade de outros fatos possíveis como um fruto carrega dentro de si uma infinidade de sementes e cada uma delas uma árvore capaz de produzir uma infinidade de outros frutos e assim infindavelmente. Por isso, exatamente por isso, haverá sempre sentido em tudo. Um sentido que, quanto mais atenção dermos ao fato, mais profundo e singular ele nos parecerá.

É como esses mapas que a gente encontra na internet: você começa focando o planeta, depois o continente, o país, o estado, a cidade, o bairro, o prédio e finalmente uma janela em particular que em ninguém mais haverá de provocar sorrisos e suspiros senão em mim.

Repare: minha imaginação nada acrescenta ao sentido dessa janela, tão igual a todas as outras do prédio. É meu amor que alcança o sentido singular dela que, na verdade, nada tem de subjetivo. Pois, mesmo que outros duvidem das qualidades que atribuo a sua moradora, quem poderá dizer tê-la conhecido tão de perto? Quem pode então me desmentir?

Portanto, não é a imaginação que cria o sentido; é o amor que o descobre. Não criamos sentido, apenas nos dedicamos a encontrá-lo. O sentido das coisas está nas coisas e nenhum outro aparato – intelectual ou mecânico – é necessário para encontrá-lo além dessa “atenção dedicada” que bem podemos chamar de amor.

Isso não significa que não possamos nos enganar. Muito mais vezes do que gostaríamos, o desejo nos cega e então deixamos de ver o que é e passamos a ver o que desejamos que fosse. Sim, não são os fatos que nos enganam. Somos nós mesmos que nos deixamos enganar – por arrogância, comodidade, fraqueza… Sim, só os erros são genuinamente nossos. A verdade pertence às coisas e nelas repousa mansamente à espera de nosso olhar mais amoroso.

10 Comentários

  1. Seria, então, uma espécie de liberdade não nos projetarmos perante tudo? Em que isso nos ajudaria? Como, a partir daí, mantermos nossa personalidade? Pois, entendo que o que somos está espelhado nas nossas atitudes com relação à tudo…Também estou feliz com nosso diálogo. Quero saber mais, mais…beijos daqui…

  2. Olá Antonio,Tinhas razão, gostei muito da crônica, vemos as coisas como nós somos e não como elas são realmente. O bom é que há como ver a realidade das coisas, mas é preciso ter coragem para nos livrar das nossas vendas dos olhos, pois não sabemos a intensidade da luz..Um abraço meu.

  3. Pronto, querido, já o adicionei nos queridinhos da Marie. Li seu perfil. Se eu pudesse também seria uma nômade e leria bastante. Apesar de já ter vivido isso há anos atrás. Foi tão bom… E escreveria bastante também. Quem sabe, não chegamos lá, não é? Adorei seu blogue e adorei sua visita. Um beijinho pra você.

  4. Oi, Antonio. Passei para agradecer a visita e tive uma grata surpresa. Você escreve muito bem. Um abraço e até mais.

  5. Talvez você tenha razão: os significados que colocamos nos significantes deveriam ser desprovidos de tudo isso quem vem de dentro da gente… talvez assim, aplacassem nossas expectativas.obrigada pela resposta!beijos daqui…

  6. Bem, Camila, o que eu estou dizendo é exatamente o contrário. As coisas são o que são e estão abertas ao nosso entendimento – desde que estejamos a vê-las como são e não como gostaríamos que fossem. Quanto menos nos projetamos sobre as coias, melhor as vemos em sua inteireza. Nesse sentido, até podemos dizer, sim, que nós somos nosso próprio limite e obstáculo ao conhecimento das coisas. Se tornamos o mundo mero reflexo de nós, matamos o mundo e matamos a nósm mesmos. Nem vemos as coisas nem nos vemos.

  7. Mas as coisas não são exatamente reflexos do que nós somos por dentro? Não há em tudo o que vemos, sentimos e ouvimos vestígios do que temos dentro da nossa alma? Não somos, afinal, a identidade conferida por nós mesmos às coisas externas?beijos daqui…

  8. “só os erros são genuinamente nossos”, mais uma vez algo da sua crônica vai de encontro a um post recente meu…por isto estou me permitindo errar mais vezes, cada vez mais humana.Semana que vem eu volto para tomar mais um café com palavras.

  9. Por que apenas uma crônica por semana?Gosto muito de seus textos…e sou a favor de mais publicações!Ah! Ficarei grata se adicionar meu blog.Obrigada.Boa Noite

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