Os deuses do futebol

Um dia com cara de outono: nublado, com uma brisa quase fria soprando do leste e uma luz sem calor nem sombras que envolve a praia vazia de banhistas. Só o pessoal das redes de vôlei e os peladeiros se espalham pela areia, numa manhã deliciosa para a prática dos esportes e da vagabundagem.

Pessoas passeiam pelo calçadão com jeito de turistas. Eu mesmo, vestido como estou, bem poderia ser tomado por turista ou boêmio daqueles que emendam a madrugada com a manhã e encerram a noite tomando a saideira nos quiosques à beira-mar.

Na verdade, estava trabalhando e depois de encerrada a tarefa programada resolvi de súbito visitar essa paisagem que tanto amo. Sim, visitar como se visita um amigo que não vemos há algum tempo e de quem sentimos a falta do abraço, do riso, das palavras, do silêncio.

Encostei num coqueiro e fiquei observando a finura de uns moleques no trato com a bola enquanto saboreava uma água gelada na medida. A bola escorria pelos pés daqueles meninos com a mesma facilidade com que água me descia pela garganta e me inundava o corpo de um prazer revigorante. Quem sabe um desses guris, aquele menor é o que mais se destaca, venha a ser um craque desses que nos enchem de alegria com seus gols? Daqui a uns dez anos, no mínimo – e então eu já nem mais me lembrarei deste dia. Haverá, claro, esta crônica quase esquecida, pontinho invisível na memória digital do computador. Mas nem eu poderei afirmar que o garoto e o craque são a mesma pessoa. Mal lhe distingo o rosto na distância e a elegância com que ele lida com a bola é herança de uma tradição que nele ainda não chega a ser estilo.

O menino será o pai do craque? Talvez, respondem os deuses do futebol – na verdade, uma legião de anjos perdidos entre o céu e o inferno, meio humanos, meio divinos. Às vezes, um despenca dessas nuvens e vira Garrincha. Outros, como Didi, quando morrem conquistam por merecimento o direito de virar um desses anjos tortos que velam pelo futebol, dos campos de pelada aos estádios mais majestosos. Estão de olho no moleque, pressinto. E o moleque nem sabe deles, apenas se diverte com as firulas que aprendeu de olho: chutes de sem-pulo, bolas colocadas de primeira no ângulo do gol, cabeçadas de peixinho…

Às vezes aqui pelas ruas do bairro cruzo com Nilton Santos. Eu e o mitológico Nilton Santos somos vizinhos! Só isso já me confere uma certa aura. Nunca lhe dirijo a palavra – ainda que sempre tenha a vontade de gritar à sua passagem um ridículo “Salve, campeão” ou algo assim. Em vez disso, lhe dedico meu melhor olhar de brasileiro e botafoguense. Mesmo os heróis precisam desse carinho.