Dois filmes

Fico tão entretido com a leitura de livros e textos na internet que acabo vendo os filmes com um atraso às vezes de anos. A inatualidade é uma forma de ceticismo, Borges poderia ter dito . Ele, na verdade, disse que ser conservador é uma forma de ceticismo. Deixarei ao leitor a tarefa de pensar as diferenças e semelhanças entre inatualidade e conservadorismo, mas confesso enxergar no inatual um charme que o conservador não tem. Porque o conservador se agarra à tradição, enquanto o inatual não se apega a nada além da oportunidade e do gosto. Enfim, se o conservador é um aristocrata, o inatual é um dândi à maneira de Baudelaire – para encerrar este parágrafo com mais uma citação vistosa.

Disse tudo isso porque só agora assisti “Dogville”. Aliás, na mesma noite assisti “Dogville” e “Ônibus 174”. Uma programação aparentemente sem sentido se não houvesse um nexo comum a dois filmes tão díspares: o abuso.

Não li as críticas sobre “Dogville”, mas me parece impossível que a alguém tenha escapado tratar-se de um filme sobre o abuso. Talvez eu deva ser mais explícito: sobre o abuso sexual. Ou ainda melhor: da conotação sexual de todo abuso.

Nicole Kidman no papel de Grace está soberba. Ela conseguiu encarnar toda a perversa indiferença que costuma envolver as vítimas de abuso e as faz retornar incansavelmente à situações de abuso – talvez sem gozo, mas não sem prazer. “Os culpados perdoam; os inocentes, se vingam”. Ouvi essa frase num filme de Bresson e nunca a esqueci. Vítima de incesto, Grace sentia-se de algum modo culpada pelos atos do pai, como se ela o tivesse seduzido e, no fundo, desejado o abuso; como se fosse ela a responsável pelo incesto – sentimento comum às vítimas de abuso sexual familiar. Repulsa e desejo, ódio e amor. Essa tensão paralisava Grace. A solução foi deslocar todo o ódio e repulsa para outro objeto, liberando o desejo e o amor para realizar-se sem culpa. Sob esse ponto de vista, a saga de sofrimentos de Grace, longe de ser fruto do acaso e da vontade doente dos habitantes de Dogville, aparece como um roteiro minuciosamente elaborado para alcançar um fim muito preciso: a liberação justificada de todo o ódio guardado dentro de si. O desfecho do filme não poderia, portanto, ser mais brilhante e revelador.

Relações de abuso por definição carecem de limites e por isso tendem ao absurdo. O diretor e roteirista Lars von Trier conduz o espectador a um estado de perplexidade e revolta que o torna inteiramente simpático a Grace. Purgamos junto com ela todas as humilhações e abusos – reais ou imaginários – do passado e não é surpreendente se nos tornamos seus cúmplices no final.

No mais, trata-se de um filme perfeito: cenário, figurinos, fotografia, direção, montagem. Tudo. Uma coisa me chamou especialmente a atenção: como a ausência de paredes ressalta o isolamento e a “cegueira” das pessoas.

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A história de Sandro, o seqüestrador quase involuntário de um ônibus repleto de pobres anônimos, é um “Dogville” real e cru, despido das sutilezas da representação. Como ele gritou repetidas vezes, aquilo não era cinema – ainda que ele tenha encenado o assassinato de uma refém. Sandro e Grace padecem de um ódio semelhante na extensão e profundidade. Vê-lo cercado de mulheres dentro do ônibus e depois as cenas do Instituto Padre Severino me provocou um insight que se tornou uma certeza provisória: essas crianças e adolescentes precisam de carinho de mulher e não de autoridade de homem. Fico imaginando uma instituição só de mulheres que os acolhesse – e já ouço um coro de vozes acusando: “Absurdo!”.

Enfim, muito bom o filme do José Padilha que só cometeu um pecado: não ter lembrado que naquele dia era Dia dos Namorados – detalhe quase insignificante, mas altamente simbólico.