Dançando no Escuro e Dogville: a estética do abuso

Depois de Dogville, acabo de assistir Dancing in the Dark (Dançando no Escuro), um filme anterior a Dogville. Por isso, é difícil não ceder à tentação de buscar entre eles semelhanças e diferenças que definam uma trajetória, digamos assim. A primeira coisa que salta aos olhos: Lars von Trier é mesmo um excelente diretor de atores. As performances que ele arranca de seus atores – especialmente de Bjork e Nicole Kidman – são soberbas. Tensas e delicadas, suas protagonistas enfrentam com vigor estóico a perplexidade quase paralisante em que parecem mergulhadas. Essa tensão se espalha por todos os personagens ao redor como se as protagonistas fossem o centro de um mistério, ou melhor, de um segredo que, por sua vez, ao menos nesses dois filmes, têm o abuso como cerne.

Apesar de todo seu sofrimento, ambas se mantêm fiéis a seus abusadores – mesmo Grace, em Dogville, porque só no fim intuímos que, no caso dela, o abusador supremo era o próprio pai.

É interessante notar que nos dois filmes as mulheres são protagonistas e são elas as personagens mais fortes. Os homens são sempre fracos, mesquinhos, falsos. Em nossa subcultura pós-freudiana a gente não escapa do desejo de fuçar a biografia do autor para buscar nas relações familiares indícios que sustentem nossas impressões. Deixo a outros essa tarefa, mas me parece nítida a desconfiança de von Trier em relação aos homens, que parecem sempre oscilar entre a fraqueza e a violência, aparentemente porque dominados pelo desejo. Em contrapartida, não há nos dois filmes a figura da “mulher fatal’: as mulheres de von Trier são fortes poque parecem ter aberto mão do sexo.

Então temos aí já duas características da “metafísica” de von Trier: a atração por semelhança, criando um microcosmo que busca escapar do mundo; o abuso como o fato definidor das relações humanas, algo que se poderia traduzir numa fórmula: “O egoísmo atávico do ser humano o conduz inevitavelmente ao abuso”, numa versão mais elaborada da versão hobbesiana “O homem é o lobo do homem”. Duas palavras condensam essa metafísica: isolamento e cegueira.

Não é por acas que os filmes se passam em pequenas cidades. Por sua vez, os protagonistas formam, como já disse, um grupo à parte, unidos pela semelhança. Mas, ao contrário de um grupo de mútua ajuda, essa unidade não busca “iluminar” o problema para transcendê-lo, mas simplesmente criar um ambiente onde ele pareça não existir. Até que uma “falha” precipita o problema e todo o aparente afeto que os unia, desanda em agressão e abuso. Sob um ponto de vista antropológico ou sociológico, eu diria que von Trier tem especial interesse pelas relações de poder entre oprimidos. Nesse sentido, seu cinema é de um ceticismo ideológico bastante incomum: não há salvação pela pobreza. Ao contrário, ela brutaliza as pessoas, como uma espécie de obstáculo natural à generosidade e ao desenvolvimento pessoal. A pobreza, enfim, intensifica o isolamento e a cegueira.

Em Dançando no Escuro, isso fica evidente porque só o dinheiro pode salvar o menino da cegueira. Por outro lado, é o dinheiro que “cega” o policial e o leva a trair Selma. Em Dogville, tudo também gira em torno da questão do dinheiro, seja indiretamente, na forma do trabalho não-remunerado que é cobrado de Grace, seja na forma direta da recompensa que, por fim, eles decidem aceitar em troca dela. Basicamente, a impressão que me dá é que von Trier inverte a mão e nos diz que, se o dinheiro é mau, melhor tê-lo do que não, porque ele corrompe mais justamente aqueles que não o possuem.

Ainda sobre o tema “cegueira” – tão intimamente ligado ao tema “isolamento” – reparem que em Dogville, a ausência de paredes intensifica o isolamento e a mútua indiferença dos personagens. No mesmo sentido, em Dançando no Escuro, os óculos de Selma são – ou melhor, tornam-se – o signo da sua cegueira. A ponto de, em todas as vezes que ela sonha e o filme se transforma em um musical hipercolorido – Selma está sem óculos. Ou seja: são os óculos que lhe ocultam a visão de si mesma, digamos assim. Os óculos são sua “prisão”, o símbolo de sua submissão à “herança genética”.

Selma, como Grace, permanece fiel ao pai ainda que, como ela, também tenha feito um esforço para escapar. Um pai que ela não conhece ou despreza – a ponto de inventar outro (Joel Grey, magnífico!). Ao mesmo tempo, ela se mantém fiel ao segredo do homem que abusou de sua confiança, roubou seu dinheiro e praticamente a induziu a matá-lo – o que para mim tem uma clara conotação sexual, de cumplicidade, muito presente nas relações de abuso.

Como em Dogville, arrisco dizer que o ódio ao pai se desloca para outro objeto, depois de todo um processo que a gente poderia chamar de “indução ao abuso”: Grace consente em trabalhar de graça cada vez mais e vai suportando os abusos sexuais que sofre; Selma conta a um homem endividado prestes a perder a casa, que guarda dinheiro escondido em casa. Quando acabam “traídas”, seu ódio ao pai encontra finalmente um objeto justificado para se dirigir. Bingo!

Eis, portanto a minha tese sobre Dançando no Escuro: da mesma forma que intuo que Grace foi vítima de incesto, acredito que Selma também foi. Mais, diria que o menino é filho do avô! A marca genética do incesto – a cegueira – é tão forte que exige dinheiro, uma cirurgia e uma dupla morte: da mãe, quase voluntariamente condenada, e a do policial que “substitui” o pai incestuoso como o “bode expiatório” dos rituais de sacrifício.

Lars von Trier é muito mais louco do que eu mesmo imaginava… Agora quero ver Maderlay para saber o quanto minhas teses se confirmam. Mas estou adorando descobrir Lars von Trier.