Palavras escritas a mão

Perdera o hábito de escrever a mão. Nada além de bilhetinhos e lembretes, palavras esparsas numa letra apressada, quase ilegível, mais código taquigráfico do que exercício de caligrafia. Mas a esta hora, tinha de escrever a mão. Não poderia sujar o silêncio com o ruído regular do teclado.

A caneta deslizava pelo papel sem pautas. E em cada variação de letra, lia a presença de alguém. “Este é meu pai”, pensou, ao olhar o arremedo da letra bem talhada de escriba, redonda e calma, igual. Seu pai. Haviam feito em sonho um acerto de contas sentimental, de modo que podiam lembrar um do outro sem apuros ou culpas. Estranho mundo este, repleto e intenso, em que há coisas que se resolvem em sonho.

Outro dia, tentara lembrar o verso de um poema e escrevera “caos sangrento” em vez de “cosmos sangrento”, como no original: “Não conseguiu firmar o nobre pacto entre o cosmos sangrento e a alma pura”. Não demorou a perceber o quanto lhe custava admitir essa proximidade de sangue e ordem. Pensava a ordem como um princípio de simplicidade e economia que associava à paz. Mas era evidente que a indubitável beleza da vida e do mundo estava permeada de violência. Uma violência vital, sangrenta de seres devorando seres – que à alma pura talvez chocasse menos do que a violência premeditada dos homens. Mas ainda assim, violência. “Que ao menos não seja em vão o sangue que corre sobre o cosmos: a isso chamaremos de justiça.”.

Era o correr desse sangue cósmico que fazia o silêncio imenso da madrugada: raros carros passando, o rumor longínquo de máquinas invisíveis, o estalar das coisas, uma ou outra voz, fiapos de música, passos ocasionais de alguém na rua, o vento. Até o frio do vento era som nesse silêncio. “O ressoar da vida em repouso velo como se a amada dormindo fosse” era um verso que só poderia ser escrito a mão. “Minha cama é o mundo e nela você é a vida que repousa sob a luz ambígua da Lua”, diria a ela, a amada, quando acordasse.

Em francês, o mar é feminino: La mer. Não sei se todos, mas ao menos este silêncio é feminino.

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