Noite americana

E então inventamos a noite. A gente precisava sussurrar abraçados no escuro. Era urgente. Por isso inventamos uma noite no meio da tarde. Bastou abaixar a persiana e fechar as portas. Junho fez o resto com seu céu nublado ameaçando chuva.
Há coisas que só se dizem assim, sussurrando abraçados no escuro.

E são essas coisas tão íntimas que vão sendo deixadas para trás – porque nos falta tempo, porque nos falta coragem, porque nos faltam palavras. E então acabamos sufocados de silêncio, desse silêncio duro feito do que não se sabe dizer.

É árduo esculpir palavras nesse silêncio. O que nos sai não vem cheio de decisão e clareza. São vagas confissões de um amor temeroso de não ser bastante – ou mesmo digno do amor que sente. Porque é muito fácil sentir-se fraco neste mundo. Muito fácil sentir-se um fardo ou uma fraude que mais tira do que dá, mãos de ferro sob luvas de pelica.

Por isso era urgente a noite – e mais legítima ela foi porque inventada. Bem aconchegados um no outro sob a colcha de piquê, as palavras nos foram saindo sussurradas, poucas, até que no ar não houvesse nada além de nossa respiração pausada e calma. Só então me dei conta que você adormecera em meus braços. Pequenos espasmos foram percorrendo seu corpo, sinal de que a tensão se dissolvia nessa outra maneira (tão singela) de me dizer “Eu te amo”: você dormia.

Minha respiração fez-se brisa, meu peito era o mar subindo e descendo compassado, meus olhos, estrelas atentas e eu todo era areia. E assim fiquei, uma praia na noite que inventamos, imóvel, a ponta de meus dedos deslizando pela sua testa, às vezes acompanhando o risco da sobrancelha, outras se embrenhando devagar entre os cabelos. Você dormia, eu estava em paz. Dois modos de dizer “eu te amo”.
Quanto tempo terá durado essa noite? É fácil calcular com calendários e relógios. Mas quanto tempo terá durado em mim essa noite, inesperada como um presente?

* * *

– Sonhei…
– Você lembra?
– Não… Quanto tempo eu dormi?
– Quase a noite toda…

Riram. Logo seria dia.