Dias e dias

– Sabe que dia é hoje?
– Quinta-feira.

Que mico! Também como é que pode Dia dos Namorados cair numa quinta-feira? Não combina nada! Primeiro de tudo: Dia dos Namorados tinha de ser domingo. Porque Dia dos Namorados é para passar namorando. E numa quinta não tem como: é luxo a que só podem se dar os muito ricos – de espírito ou de grana. Aos demais, lembrar já basta. Até porque a propaganda é tanta há tanto tempo que chega a ser uma gafe esquecer.

Escolheram a data porque é véspera de Santo Antonio. E véspera de casamento é namoro. Ou era assim. Hoje eu tenho a impressão que as pessoas namoram tanto que quando se dão conta já estão casadas. Ou seja: a distância que separa o namoro do casamento não é mais de um dia, mas de um mês, quem sabe, um ano… Para simplificar, poderia ser o segundo domingo de junho. Sempre estaria perto de Santo Antonio, mas a distância seria incerta, com anos mais casamenteiros e outros menos.

Porque não adianta: Dia dos Namorados tem cara de domingo. E já há tantos domingos: há o domingo de Ramos, o domingo das mães, o domingo dos pais, o domingo de carnaval, o domingo de Páscoa… Por que não o domingo dos namorados? Comercialmente seria muito melhor, porque é óbvio que o Domingo dos Namorados começará na sexta à noite e se estenderá até domingo à noite em secreto carnaval, discreta lua de mel, um fim de semana inteiro só para os dois.

O que podia ter dia certo era o Dia dos Ex-Namorados. Podia ser um dia qualquer de liquidação numa virada de estação, porque presente de ex-namorado tem que ser baratinho, claro, ou vai provocar ciúmes em vez de riso. Muita graça e nenhuma ostentação – esse é o espírito. Também tem ser entregue por outro, como as flores – para evitar constrangimentos.

E já que estamos inventando dias, que tal o Dia dos Amores? Nesse dia a gente daria um presente só – bom, bem escolhido e pensado – para alguém da nossa família íntima, um desses que dão a substância da nossa vida, que são o nosso céu e o nosso chão. Não precisava ser um dia exato, mas uma semana, a Semana dos Amores, pra ficar mais casual e inesperado.

Mas se fosse para reivindicar mesmo, transformar em lei, direito adquirido, princípio constitucional, eu queria que todo cidadão tivesse o direito de decretar uma vez por ano feriado íntimo – e assim poder faltar ao trabalho sem dar explicações nem ser descontado. Ou melhor, se chamado a explicar-se, bastaria dizer simplesmente: “Feriado íntimo” – e nada mais lhe seria cobrado.

Que o cidadão pudesse, por exemplo, decidir namorar uma quinta-feira inteirinha e chegar ao trabalho na sexta e dizer: “feriado íntimo” para espanto, prazer e inveja dos ocasionais ouvintes.