Despedida

Como é que você me morre assim, meu amigo, de repente, sem nada mais do que um suspiro? E então, no meio da noite de domingo, entre um e outro intervalo do Fantástico, seu corpo jaz inerte no chão da sala, como se você tivesse adormecido diante da TV. Mas você já não estava ali. Agora era só seu corpo que atravancava o caminho como um obstáculo incômodo, um boneco de cera surpreendentemente pesado. A perplexidade sucedeu o desespero e foi com a resignação de quem espera acordar de um pesadelo que se promoveu a série de trâmites burocráticos – agravados pelo dia e pela hora – necessários para retirar você, seu corpo – como chamar, enfim? Logo você que sempre fizera questão de não incomodar ninguém, sempre tão independente – no fundo, um solitário amável e silencioso.

Eu que cheguei depois, atendendo o chamado de minha prima, sua mulher, olhava você – seu corpo? – e nem sequer sei dizer o que sentia ou sinto. Uma tristeza tão funda que nem parecia doer. Há algo na morte de tão indizivelmente cruel e, ao mesmo tempo, tão banal que beira a irrealidade: é dor e estorvo, obviedade e surpresa, choque e resignação. A alma que há em nós – ou seja lá o que for – parece intuir que o fim é também continuidade ou começo. O animal que somos sente o medo ancestral que nos ata desde o passado sem memória ao futuro mais longínquo a todos os homens e a todos os seres: morremos. E deve ser mais horrível saber que se morre do que morrer.

Seus objetos cotidianos ainda estavam espalhados pela casa, claro, como se você tivesse saído sem avisar ou ido simplesmente dormir. Fiéis, os objetos pareciam aguardar você sem saber que jamais voltariam a vê-lo. Lembranças de nossa amizade iam me surgindo, como se temessem se perder como o maço de cigarros, o isqueiro, o radinho de pilha, os óculos. Cuidarei bem delas, fazem parte do que tenho de melhor. E, em face do absurdo que é a morte, eu me agarrava a uma certeza: você viveu e morreu exatamente como sempre quis. Poucos poderão dizer o mesmo e eu me orgulho por você e esse orgulho também me serve de consolo.

Sentados à mesa da cozinha, conversávamos eu, seu irmão mais velho e o papa-defuntos enquanto aguardávamos a remoção – e o rapaz nos dizia – com uma candura que contrastava com o corpo quase obeso, os preços extorsivos que não seria de bom tom regatear, os muitos recibos e papéis – que a ausência de certa marca roxa em seu pescoço denotava uma morte sem sofrimento. Me ocorre agora que escrevo que talvez alguém também já estivesse cuidando da remoção de sua alma…