Nome Próprio: Falta movimento!

Clarah Averbuck tem um domínio natural da arte de narrar. Por isso, suas crônicas lhe valeram uma horda de fãs. Digo horda porque fãs são gente bárbara – volúvel e caprichosa. Eu, por exemplo, não li os romances que deram origem ao filme Nome Próprio, de Murilo Salles. Sem conhecer a obra original é impossível saber o quanto o roteiro foi fiel à história – ou às histórias. É o que menos importa, nesse caso. O principal, o espírito do texto – ou a graça que Clarah confere a uma sucessão de fatos banais – não sobrevive à passagem para o cinema.
Sem essa graça, o que sobra? A nua sucessão de fatos banais agravada pela crença supersticiosa de que a lentidão é capaz de dar densidade às narrativas. Não é. Ao mesmo tempo, faltam ao roteiro os elementos característicos do universo de Clarah. Falta tatuagem, falta piercing, falta estrada. Falta rock and roll. Falta humor e um toque de non sense. Falta movimento. Enfim, sobrou Noveau Roman, mas nem uma pitada de New Journalism. Muita Sarraute e Duras e nada de Hunter Thompson.

Pode-se argumentar que não se deve confundir Camila e Clarah, mas quem sugere essa fusão é o próprio roteiro por meio de detalhes quase esotéricos de tão sutis – como ser sempre o mesmo porteiro e a mesma escada de acesso ao apartamento – que culminam com a cena final que inesperadamente – e desnecessariamente àquela altura – justapõe autora e personagem.

Não é possível dizer até que ponto o roteiro determinou a escolha dos trechos dos textos de Clarah ou se, ao contrário, foi essa escolha que determinou o andamento do roteiro. Mas a seleção de Viviane Mosé não foi feliz na ênfase quase redundante em questões como identidade e vazio que, ao ganhar um destaque excessivo, acabam por fazer de Camila uma espécie de candidata mirim a Clarice Lispector.

Não se poderia, aliás, imaginar pessoas mais díspares do que Viviane Mosé e Clarah Averbuck, a despeito do talento que se atribua a uma e outra. Mosé é acadêmica; Clarah é pop. Mosé tem os dois pés na França; Clarah tem ao menos um nos EUA. Mosé está impregnada de Nietzsche, Foucault e anos 60. Clarah embebedou-se de Miller, Bukowsky e os punks. Enfim, juntar as duas não deu liga e a Camila/ Clarah do filme de Murilo Salles, é só uma menina com problemas comuns amplificados pelo alcoolismo, sem densidade nem vigor. Leandra Leal está bem nessa Camila que lhe deram, mas faltou o toque de ironia que impedisse a autodestruição de descambar para autopiedade.

Apesar de todos os equívocos do roteiro que resultaram num filme longo e lento demais, Nome Próprio não é ruim. A câmera nervosa move-se com elegância que a montagem soube valorizar, Rosanne Holland é linda e há ao menos uma cena memorável: o quase afogamento de Camila em Copacabana, como direito a uma referência sutil a cena célebre de Burt Lancaster e Deborah Kerr em “A Um Passo da Eternidade” (1953), de Fred Zinneman. O único aspecto realmente insuportável do filme são aqueles letreiros redundantes que mais parecem um teleprompter bêbado a reproduzir na tela o que já se ouve em off.

Enfim, Nome Próprio não é certamente um desastre, apenas um filme de gente talentosa que ficou aquém de suas possibilidades. Acontece – e não desmerece ninguém.Publicar postagem