Dos amigos

Eu sou uma invenção de meia dúzia de amigos – mais ou menos como esses sambas-enredos de carnaval. Só que, no meu caso, se o resultado não é lá essas coisas, a culpa não é deles, mas da matéria-prima que não ajuda muito. Não tive uma vida venturosa, nem tampouco santa. Nada havia que valesse a pena cantar, mas os autores conseguiram algumas rimas de efeito e aqui estou imaginando vagamente como seria um desfile de carnaval comigo de samba-enredo: as alas, a comissão de frente, os carros alegóricos, as fantasias…

Às gargalhadas, recomendo ao leitor, sempre que lhe ocorrer estar um pouco triste, lançar mão desse expediente simples: imaginar-se enredo de desfile de escola de samba. Seja minucioso e irreverente que, eu garanto, não haverá tristeza que resista. Eis o que somos: um samba-enredo cantado por uns doidos cheios de entusiasmo, sem muito sentido, mas com algumas rimas interessantes, se calha de reunirmos os autores certos.

Outro dia, escrevi no Orkut um depoimento para um dos meus amigos-autores desse samba-enredo que sou e disse que do muito que ganhou do criador, eu, a criatura, destaco duas qualidades: a generosidade e o humor. Eu poderia dizer que esses são traços comuns a todos os meus autores. A diferença é que no Bruno generosidade e humor se misturam de um modo que viram uma espécie de bondade, um modo de ver a vida, um sentimento de mundo. Ou dito mais simplesmente: um estilo. Bruno tem estilo.

Humor generoso, generosidade humorada – o que importa é que todo mundo gosta de estar perto de gente assim. Nem vou ficar listando aqui o que devo a esse meu autor-amigo em histórias e fatos que hoje são a substância de que sou feito, o lugar para onde olho quando busco um sentido, o que em mim é rima. Mas posso resumir dizendo que já ri muito com ele e que nunca o vi gritar, brigar ou reclamar. Estar com alguém assim afina a alma mais grosseira.

Sim, minha alma ficou mais fina depois que fui apresentado a Julio Cortázar (e nunca devolvi Todos os Fogos o Fogo), a Vargas Lhosa (também não me lembro de ter devolvido Tia Julia e o Escrevinhador!), a Cartola – e mais outras tantas presenças… Minha vida teria sido outra – certamente mais pobre – sem esse coração-navio, sem essa alma-livro. Obrigado, amigo!

Hoje raro vejo meus autores. Hoje os tenho como flores em minha casa.