Notas de Pequim direto do sofá

Esse papo de começar as Olimpíadas no dia oito do oito de dois mil e oito, às oito e oito é mais do que superstição: evidencia a obsessão chinesa pelo controle – presente em toda parte. O Estado tenta controlar a imprensa, a internet, os turistas, o fluxo de pessoas e palavras. Os nascimentos e as mortes. Tudo. Tenta-se controlar tudo. Todos os atletas chineses estão confinados há três anos – sem ver pais, amigos, amores – obrigados a treinar.

Na abertura, o governo chinês desfilou seu samba-enredo: “China apaga o comunismo e reconta sua História”. Impressionante. Queria saber a opinião da Rosa… Não a de Luxemburgo, mas a Magalhães – de outras revoluções na avenida, essas inesquecíveis – sem abrir mão do luxo de ser efêmeras…

Mas, eu dizia, impressionante esse desprezo ao comunismo. Ao contrário da Rússia de Putin, a China não quer saber de seu passado comunista. Sem cerimônia, deletaram o que chamam de “Era da Vergonha” que se estende do final do Império dominado pelo colonialismo ocidental até os últimos dias da revolução comunista. Sai Mao e entra Taiwan, aplaudidíssima. Só isso vale por tratados. Eles querem controlar também o tempo. E a História.

A China simplesmente se reapropriou diante do mundo da própria História, ocidentalizando-a. Ela hoje se conta como nós no Ocidente a aprendemos na escola: a pólvora, o papel, a bússola. Por outro lado, se apresentou – de forma sutil, mas muito clara – como o contraponto oriental da Grécia. Ou o contraponto espartano de Atenas? Só o tempo dirá.

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(Controle e previsibilidade. Feng Shuei e I Ching. O Chão e o Céu.)

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A tentação de atribuir essa obsessão pelo controle ao comunismo é grande, mas, me parece que verdadeiro é o inverso: o comunismo na China é apenas a manifestação contingente e histórica de uma necessidade do “Império do Centro”: a centralização e o controle. São 56 etnias apertadas em um espaço não muito maior do que o Brasil. É muita gente, muito espaço. Por isso acho que dá para dizer que a China é, há quase três mil anos, um mercado comum mais ou menos fechado segundo as contingências de sua produção.

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Há o lado B desse samba: a juventude, a dita “geração de filhos únicos” resultante do controle (de novo a palavra!) da natalidade – desenvolveu um entusiasmo nacionalista olhado no mínimo com ceticismo por qualquer ser humano que conheça dois dedos da história do nazismo. Ao menos um amigo insistiu na a analogia com as Olimpíadas de Berlim, 1936. Olhando a abertura, faz sentido.

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Uma conseqüência do controle da natalidade: calcula-se haver algo em torno de 400 milhões de chineses “não-contabilizados”. Qual o efeito disso na economia?