Meditações improvisadas

Filipe reclama da monotonia da vida. Juliana também. Eu, nem tão sábio nem tão feio quanto Sócrates, respondo: é assim mesmo. E explico. A vida sabe-se finita. E por isso, esforça-se para durar. Eu costumo dizer que perguntar pelo sentido da vida é tolice. Viver é o sentido da vida. Ou a vida é seu próprio sentido. Ou, em outras palavras: o sentido da vida é durar. A vida só quer sobreviver.

E qual a fórmula para fazer durar a vida – ou qualquer coisa? Poupar. Dito de um modo mais extenso: produzir o máximo com o mínimo de esforço. Isso explica tudo: da órbita elíptica dos planetas à escravidão humana, passando pela crueldade da natureza (ou você acha que o leão vai atacar um macho adulto se é mais fácil vencer uma cria desgarrada?). Por isso, a primeira – e talvez a única – lei universal é a lei do menor esforço – que nos parece simpática até se manifestar na sua forma mais hedionda: a lei do mais forte.

Ora, quando encontramos uma forma, um modo, que nos pareça o melhor, o mais prático e econômico de alcançar algo, o que naturalmente fazemos? Adotamos esse modo como padrão. Eis, portanto, porque a vida nos parece monótona: ela naturalmente busca padrões.

Isso explica também a dupla face aparentemente contraditória da vida: sua extraordinária capacidade de se adaptar a situações novas, a quebras súbitas de padrão, exibe um lado altamente criativo. No entanto, a busca incessante por padrões mostra o quanto ela é conservadora. Enfim, como já assinalara Descartes, criação e conservação são as duas forças que concorrem para a vida – ainda que todo esforço de criação busque estabelecer um novo padrão a ser posteriormente conservado.

Mas alguma coisa em uns mais do que outros – mais talvez no Antonio, no Filipe, na Juliana – nos faz tender mais para a criação do que para a conservação. Alguma coisa nos força a buscar o singular onde todos procuram o geral, a solidão em vez do grupo, o silêncio em vez da música. Alguma coisa. Essa alguma coisa eu desconfio que seja a alma.

Aí alguém talvez nos perguntasse – a mim, ao Filipe e a Juliana – num tom de incômoda ironia: “Então alguns têm mais alma do que outros?” Não sei… Creio que os espíritas diriam que sim, mas de um outro modo, falando em espíritos mais evoluídos do que outros. Por outro lado, é lugar comum se falar em “pessoas mais sensíveis” do que outras… Enfim, deixemos indefinida essa “alguma coisa”. Talvez mais simplesmente, a natureza exija que se mantenha sempre a mão uma cota extra de “seres mais criativos” para eventuais emergências. Gente que, em momentos de maior estabilidade, tenderá a padecer de um tédio quase infinito… Falei de infinito? De onde tirei essa idéia? E aí recomeça a meditação: de onde vem essa idéia de infinito num mundo onde tudo à nossa volta é finito? E de novo, retornamos a Descartes…