Da comovente precariedade de tudo

Que bom você ter levado o livro que eu lhe dei de presente. Será um pouco com se eu estivesse ao seu lado. Se pudesse, eu iria, você sabe. Mas, não dá. Então vai o livro, em vez de mim. Claro, eu seria uma companhia melhor, porque você nem precisaria ler, eu falaria direto em seu ouvido, sussurrando histórias com o ar mais sonso do mundo, como se nem quisesse excitar você. Excitar pouquinho, que a hora não seria própria. Enfim, mais divertir do que excitar. Fazer você rir essa sua gargalhada que um dia eu gravo e fico rico, tão engraçada ela é. Porque uma gargalhada que faz rir é o próprio moto contínuo. Então quando as pessoas estivessem muito tristes, tristes de dar dó, fariam tocar sua gargalhada como se fosse uma música sabendo que, mesmo contra a vontade e todos os presságios, acabariam rindo, rindo às gargalhadas da sua gargalhada. E acho que nem seria o caso de vender… Vamos dá-la de presente ao mundo e deixemos para ficar ricos de outro modo.

Outro dia, achei num livro que você me trouxe – aquele que você me devolveu porque chora toda vez que lê – achei dentro dele um jogo de loteria. Menina, aquilo me comoveu como o diabo! Fiquei olhando os números, desvendando o significado provável deles: havia, acho, os dias em que nascemos; o mês, que é o mesmo; o ano do meu nascimento, porque o seu não consta entre as dezenas possíveis… Achei tão singelo o jogo dentro logo daquele livro que você acha tão triste, a vaga possibilidade de se resolver de uma tacada só todos os nossos problemas, a escolha dos números seguindo uma lógica parecida com a minha quando jogo, a mesma louca esperança compartilhada de um dia… Puxa, como aquilo me comoveu…

Ando me comovendo cada vez mais com quase tudo. Não é um sentimento bom ou mau, não é dor nem prazer. É, não sei, uma espécie de (ou será a verdadeira?) compaixão. Sabe, eu percebo uma delicada precariedade em quase todos os atos humanos. Sentimos medo, admiração, desejo, júbilo, dor, alegria, curiosidade, contentamento – e quase sempre nos faltam palavras. E mesmo o gesto… É louco dizer isto, mas até quando matam o que eles parecem estar tentando é estender uma precária ponte entre o abismo que separa os corações.

Numa noite dessas, entrei no mercado para comprar leite – me deu uma vontade súbita de comer mingau, veja só (não faça essa cara de nojo!). Enquanto esperava o troco reparei que a moça de um outro caixa me olhava. Era um olhar longo, fixo, que parecia me atravessar porque nem se dava conta de estar sendo percebido. Era um olhar de paixão apagada pela tristeza: não havia o menor traço de desejo naqueles olhos, mas uma resignada renúncia a qualquer possibilidade de encontro. Seu olhar dizia: “Você não é pra mim”.

Não sei se desviei os olhos ou a cumprimentei com um aceno, mas passado o embaraço, me senti de novo comovido. Ah, meu amor, que solidão havia naqueles olhos! Tudo que tentei fazer foi parecer merecedor daquele olhar – e nada mais. Não quis parecer forte ou sedutor, mas apenas bom, humanamente bom. Eu também já desejei quem não queria ou não podia me desejar. Eu também tenho medo. Medo que o amor apodreça no porão escuro do meu navio porque a tempestade não me deixa desatracar do cais. Medo da solidão. Medo de perder você. Medo.

Mas também sinto admiração, desejo, júbilo, dor, alegria, curiosidade, contentamento. Também sinto você, o mar que és, tempestuoso às vezes – e com a mesma coragem com que atravesso a rua, atravesso você, em meio à chuva e a escuridão, para chegar com meu navio até você, do outro lado.