Último capítulo

Três sacos de balas de coco por dez reais. Eu sabia que aquelas balinhas iam virar uma novela na minha vida. De cara, deixei um saco com os examinadores do DETRAN. Antes tivesse deixado os três. Mas não, fui mesquinho até na falsa generosidade do presente.

Os dois sacos restantes repousaram sobre a mesa por dias. Se eu quisesse ser honesto, diria “semanas”. Não os dava, não os comia, não os jogava fora. Ficaram lá – falsamente esquecidos, como certas dores que às vezes aparecem, as ferramentas que é preciso comprar, a bainha da calça por fazer, os quadros encostados na parede. Pesavam sobre a mesa. Não se pode dar aquilo que se rejeita. Mas jogar fora as balinhas seria admitir o prejuízo, o engano, a tolice. Seria encerrar o assunto. Seria…

Dias e dias. “Ousou abrir cuidadosamente um dos sacos para provar uma balinha.” Que cena! Muito doce – e nem o mais vago gosto de coco. Ah, sim! O tal vendedor passou por mim na rua: ele não é manco. E a história que contou da filha com leucemia que faria 15 anos no domingo, deve ser falsa, claro.

Pois é, as balinhas ficaram lá tantos dias também para me lembrar que todas as histórias são verdadeiras, mesmo as falsas. E sobretudo elas – ou a literatura não terá nenhum valor. Que alguém precise inventar uma biografia tão triste para viver já o torna digno de pena. “O coração é frágil…”, lembrou o rapaz do DETRAN. E tem razão. Só o que nos salva – o que nos purifica – são umas gotinhas de ironia cáustica. Na hora, me faltou. Depois, foi o falso drama falso, leitor – essa coisa de querer fazer de tudo literatura, de carregar de intensidade o ínfimo para que ele passe por símbolo de algo -e assim talvez dar algum valor às balinhas.

As balinhas… Foram para o lixo no dia de São Cosme e Damião. Que as formigas tenham feito bom proveito delas.