Mais notas sobre o Pai Nosso

Semana passada falei sobre uma interpretação muito pessoal do Pai Nosso. Alguns leitores pediram que eu avançasse um pouco mais na interpretação das relações esboçadas. O mais sensato seria aprofundá-las com rigor – o que exigiria tempo. Achei mais interessante aproveitar o embalo do nosso interesse – meu e de alguns leitores, ao menos – e tentar ir o mais longe possível numa espécie de “improviso ensaiado”, pois já pensei muito no tema, mas nunca o coloquei no papel. Vamos lá…

Vejo o Pai Nosso dividido em duas partes que se relacionam mutuamente. Essas duas partes, por sua vez, estão divididas em cinco instâncias, relacionadas a partes do corpo – mas não apenas. Então, a cada uma dessas cinco instâncias correspondem duas palavras-chaves, relativas a cada uma das partes da oração. Da relação entre essas palavras-chaves é possível extrair sentidos que ampliam ou esclarecem o significado da oração.

Então teríamos: Pai Nosso que estais no Céu/como no Céu; Santificado seja o Vosso Nome/o pão nosso de cada dia nos dai hoje; venha a nós o Vosso Reino/perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido; seja feita a Vossa Vontade/não nos deixei cair em tentação; assim na Terra/ livrai-nos do Mal. Assim, as palavras-chaves de cada instância seriam: Céu/Céu; Vosso Nome/ Pão; Vosso Reino/ perdão; Vossa Vontade/tentação; Terra/Mal.

Escolhi “Céu” em vez de “Pai” na primeira instância, porque a combinação me parece mais reveladora. No Antigo Testamento, Deus se define como “Eu sou o que sou”. No Sermão da Montanha, Jesus diz “Que o teu sim seja sim e que o teu não seja não. Tudo mais vem do maligno”. Só em Deus objeto e representação coincidem: não é possível definir Deus senão recorrendo a tautologia: Deus é Deus. Por outro lado, isso projeta um critério de Verdade, claramente exposto por Jesus “O que é, é; o que não é, não é”. Todo e qualquer relativismo que se afaste desse critério simples é obra do Maligno. Então, se por um lado a verdade é inesgotável, por outro ela é representável pela consciência – por aproximações cada vez mais precisas até alcançar, através da meditação e da oração, a comunhão com Deus expressa na relação “Céu/Céu” e na expressão “assim na Terra como no Céu” – a que chamei de eixo vertical de reciprocidade ou o pilar da cruz.

“Vosso Nome/ Pão” sugere, entre outras coisas que há um “alimento espiritual” que bem pode ser o nome oculto de Deus, aquele de que trata a Cabala e outras tradições exotéricas. Se a comunhão com Deus (Céu/Céu) sustenta a alma, o conhecimento do Nome de Deus alimentará o corpo.

A instância “Vosso Reino/ perdão” é a mais fácil de interpretar – e talvez a mais difícil de exercer. A chave do amor ao próximo pregado por Jesus é o perdão. A chave do desapego pregado por Buda é o perdão. O perdão, aliás, é bem definido por uma tautologia muito popular: “O que passou, passou”. Logo, o perdão nos coloca inteiro no presente – sem ressentimento nem desejo de vingança. É o Reino de Deus em mim. É o que chamei de eixo horizontal de reciprocidade ou os braços da cruz – da cruz q é também a representação do Homem.

“Vossa Vontade/tentação” também não parece de difícil interpretação. Mera aparência, pois qual seria a Vontade de Deus? Mais simples é pensar o que é a tentação. Eu acredito que ela pode ser resumida em uma palavra: poder. É a vontade de se impor sobre os outros, de deixar que prevaleça a lei do mais forte – que é um corolário da única lei universal, aquela sob a qual toda a Natureza se organiza, que é a lei do menor esforço, ou lei da inércia. Há uma clara contradição aqui: se “Deus e Natureza são o mesmo”, e a tentação é “natural’, logo ela seria também divina? Pois é, que tentação…

Finalmente, “Terra/Mal” que é de onde partimos em nossa mínima e aparentemente contraditória condição de “animal racional” obrigado a “buscar o sustento com o suor do rosto” num ambiente hostil onde prevalece a violência, a ameaça da morte e que por isso exige um permanente estado de alerta para agir sobre os mais fracos em proveito próprio e escapar da ação dos mais fortes sobre nós. A violência é o mal. E numa “ascese negativa”, ela se converte em vontade de poder, depois em tirania, a seguir em gula, avareza e cobiça e finalmente em loucura. Ao contrário, a “ascese positiva” proposta pelo Pai Nosso nos leva da Terra ao Céu pela superação desses obstáculos sob a égide do amor e do perdão.