A gota d´água

Uma minúscula gota d’água pende no ar, vacilante entre a gravidade que a atrai para baixo e não sei que outra força que a agarra à torneira. Eu a assisto e, por segundos que vão se tornando infindáveis, ela permanece assim, suspensa no silêncio da manhã incerta e cinza.

Quase não se vê que ela se avoluma lentamente, prenúncio do que será a vitória da gravidade: é inevitável que ela venha a se estatelar em breve contra a louça fria. Mas ela resiste, comovente e plástica. Sem pressa, vai desenhando-se a perfeição que será sua ruína: tomando a forma clássica de uma gota, máxima representação de si mesma, ela então deixará de ser, alçando-se num vôo descendente e vertical até o fim.

Torço por você, gotinha solitária. Admiro a força que faz você durar, indiferente aos meus olhos cativos, tão ciosa do seu destino de ser gota, a melhor e mais perfeita gota que um pedaço de água pode desejar ser e apenas para si mesma. Haverá – mesmo em você, até em você – uma lição? Claro – e ela é tão óbvia.
Mas agora nem é disso que se trata. Imóvel, meu coração na mão, uma quase lágrima também me aquece o olhar atento e amoroso. Torço por você, sem nem mesmo saber o que desejar. Que dure? Mas se tudo neste mundo está fadado ao fim…

Um caminhão passa longínquo e veloz e faz vibrar o prédio. Humilde e heróica, a gota treme ligeiramente e cresce, grávida de si mesma. Mas não cai: acomoda-se por dentro e se mantém no ar. E assim, resistindo, amadurece, dona de si.

Quisera poder guardá-la ou de algum modo preservá-la, tão vaidoso sou. Porque me doerá perdê-la. Mas ela, como tudo mais, não me pertence. Sim, a exceção do meu corpo e do meu silêncio, nada mais me pertence – nem as palavras, nem o amor que você me tem.

Só – como essa gota que talvez nem sequer resista exatamente, mas apenas se conforme em ser o melhor que pode na manhã anônima. Temos, eu e a gota, a sorte de uns olhos que nos assistem: eu, os seus, leitor; ela, os meus. Nada mais se deve esperar da vida.

Finalmente, num piscar de olhos, a nobre gota se descola da torneira e se arroja no vazio – no que talvez seja para ela um vôo. Nem sequer consegui vê-la dissolver-se na pia e escorrer em pedaços, mas eu todo tremo por dentro de saber que jamais voltarei a vê-la nem outra haverá igual.

Levanto-me e vou fazer seguir a vida, como tudo mais. Só. A lágrima que em mim resistia se dissolve sem dor nos abismos que me habitam.