Os idiotas

O que mais me aborrece no jornalismo é a tendência à “socialização da responsabilidade” que é o outro nome da “vitimização dos culpados”. Vejam o caso dos soldados e voluntários flagrados furtando doações enviadas aos flagelados das chuvas de Santa Catarina. Imediatamente aparecem idiotas de todos os matizes para responsabilizar “os políticos e empresários”, “nossa herança cultural”, “os brasileiros”, “a falta de cultura” e por aí vai. Sem contar, claro, “o capitalismo”, “o neoliberalismo”, “a falta de ética e cidadania”, “a cultura judaico-cristã”, “o aquecimento global”, “a ressonância de Schumann”, “a surdez de Beethoven”, “a cegueira do Bush”.

Impressionante que, entre todos os “especialistas” ouvidos – professores de ética, filósofos, historiadores, psicólogos, sociólogos, antropófagos e canibais – a ninguém tenha ocorrido responsabilizar… os responsáveis! Sim, os responsáveis.

Como sempre, peguei o bonde andando, e tive dificuldade de achar no jornal do dia seguinte os nomes de ao menos alguns dos responsáveis ou mesmo uma foto deles. Ou seja: até os jornais já tinham se desinteressado pelos indivíduos que afinal tinham praticado os furtos e se deliciavam procurando as responsabilidades históricas, genéticas, espíritas, ideológicas, partidárias.

Enfim, no universo mental – aparentemente dominante – a responsabilidade individual – aquela nominal, pessoal e intransferível – foi abolida. E íor: encantados em descobrir raízes tão claras e profundas, muitos leitores repetem a cantilena sem perceber que esse argumento retira do individuo – isto é, dele leitor! – o domínio sobre seu próprio destino. Esses argumentos mal ocultam seu objetivo: preparar o terreno para o Novo Homem – o velho projeto totalitário de Lênin, Hitler e de todos os tiranos sanguinários que os precederam e sucederão.

Mas o que torna o idiota idiota é exatamente essa dificuldade em perceber o óbvio, maravilhado que está em encontrar uma explicação tão fácil e aconchegante. Nada mais delicioso para um idiota do que o calor da manada. Não é à toa que os concursos públicos se tornaram provas de catecismo ideológico. “A quem eu devo odiar para conseguir uma boquinha no Estado?” – é a síntese de boa parte de concursos públicos, teses de mestrado e doutorado, dissertações, palestras, projetos, etc.

A estupidez dessa “socialização da responsabilidade” é que os idiotas não a estendem ao que consideram positivo. Sim, a que atribuir os galpões lotados de doações? Aos “brasileiros”? A nossa “herança cultural”? A “má qualidade do ensino”? Dessa maneira é fácil perceber a fraqueza obtusa do argumento, não?

Mas por que se escolhe essa via? Acho que em parte porque a simples e objetiva responsabilização dos indivíduos não dá margem ao drama fácil e intenso a que os idiotas estão viciados. Eles querem dramas – dramas apocalípticos: civilizaçãoes em ruínas, choques ideológicos, majestosos simbolismos revelados por sua mente arguta. A emergência do Novo Homem pede esse “drama da decadência” que faz de cada gesto um símbolo e um sinal dos Novos Tempos e abre a todo tipo de violência reformadora. Não é á toa que se diz que de bem-intencionados o Inferno está cheio – e os governos também.