Dar presente

Redescobri neste Natal a volúpia de dar presentes. O que era uma simples obrigação revelou-se um prazer. O chato era eu e agora até da expressão eu gosto: dar presente. Aliás, como seria bom poder levá-la ao pé da letra e dar de fato a alguém um presente – novo, outro. Ah! Mas isso só mesmo os amantes podem se dar.

Aos amigos e parentes, aos queridos de todos os graus e matizes, o que podemos dar atende melhor pelo nome de presença. Porque todo presente quer dizer uma coisa muito simples: “Lembrei de você”. Mas também significa: “Quero ser lembrado por você”. Se a lembrança é a forma humana da eternidade, o presente é a versão humana da onipresença: eu serei presença em cada lugar onde haja um presente meu carinhosamente guardado. E, se cada um dos presenteados me devolver um ocasional pensamento de gratidão a cada vez que olhar o presente, será como uma espécie de oração em meu favor junto aos anjos que regem os céus e protegem os bons, todos os bons, até aqueles que não acreditam em anjos. E como sabem que somos bons? Acredito que exatamente pela quantidade de gente que nos é grata. Não sei, mas me parece um critério justo. E se for assim, é preciso atenção: um mendigo que ganhe uma moeda pode ser mais grato que um rico que ganhe uma gravata de seda. Mas também não devemos esquecer que há ricos generosos e mendigos ingratos.

A fórmula para que nos sejam gratos pelos presentes que damos é simples: dar livros para os que lêem; chinelos para os que caminham; bijuterias para as moças; objetos de casa para as senhoras; brinquedos para as crianças. E por aí vai…

Assim, acertei até no presente que comprei para mim: um peso de papel de vidro transparente, cheio de bolhas de ar de variados tamanhos por dentro e uma nuvem azul no fundo. Arredondado, ele se encaixa elegantemente na minha mão. Olhando agora, enquanto escrevo, para ver se a descrição confere minimamente com o objeto, me dou conta que talvez não seja de vidro, mas de alguma espécie de resina. Não sei, mas é tão bonito… Eu o giro e as bolhas de ar parecem se mover como uma espécie de caleidoscópio, um modelo do universo, um pedaço de tempo congelado, uma bola de cristal onde tento ver o futuro…

Mas tudo que enxergo sobre isso de presentes e presenças é a ironia súbita de pensar que às vezes a única forma de se dar um presente novo a quem se ama é presenteá-la com a nossa ausência – pois até a falta pode tornar-se generosa.