Das espécies de origem

Tenho acompanhado a polêmica entre Evolucionismo e Criacionismo há algum tempo. Ainda que ambas as teorias me pareçam igualmente improváveis, o Criacionismo me é esteticamente mais agradável. Não que ter como parente distante um macaco me pareça mais humilhante do que ser da mesma espécie que Hitler ou Stalin. Mas ter descido dos céus e não das árvores me é muito mais reconfortante.

Acresce que em matérias filosóficas, abracei o Crepusculismo, corrente de pensamento fundada por mim mesmo e que tem apenas a mim como discípulo – o que tem me evitado muita polêmica, ainda que não me poupe de dúvidas e contradições. O pilar dos pilares do Crepusculismo é a preguiça – ou dito de modo mais filosófico: a lei do menor esforço – o que neste exato momento me libera de novamente apresentar os rudimentos do Crepusculismo ao leitores mais novos, coisa que já fiz em crônicas passadas.

Sendo a preguiça um suposto essencial dessa Escola, me causa também horror pensar que o Homem seria resultado de um lento arrastar de mutações mais ou menos casuais. Que tédio!

Por outro lado, um dos corolários da preguiça é, sem dúvida, a concórdia. Por preguiça somos capazes até de vencer nosso natural egoísmo, origem de todos os nossos desvios de caráter. Por isso, à luz do Crepusculismo , há muito meditava para encontrar uma fórmula que conciliasse as duas teorias sobre a origem do Homem. Teorias aparentemente inconciliáveis, perceberá imediatamente o leitor preguiçoso.

Mas não seria eu o fundador do Crepusculismo e seu mais fervoroso adepto se não me dedicasse com afinco ao desenvolvimento das ciências e das artes em geral. Assim, depois de muito refletir, finalmente nesta noite da passagem do ano fui tomado de inspiração tamanha que a nova teoria me veio ao espírito inteira, pronta .

Terá sido a observação pela TV de milhões de seres humanos comprimidos em multidões à espera de ver os mesmo fogos de sempre, vestindo as mesmas roupas de sempre, repetindo os mesmos gestos de sempre a pretexto de comemorar (sem nenhuma novidade) o ano novo que me estimulou a intuição? Não sei, talvez. Importa mais a teoria que finalmente alcança o impossível: a conciliação do Evolucionismo e do Criacionismo. Chamei-a de Involucionismo.

Em linhas gerais, o Involucionismo guarda o que de melhor ou de mais caro há nas duas correntes. Do Criacionismo, preserva a idéia de que o Homem foi criado de uma vez – ainda que evite dizer por quem ou de que modo exatamente. E do Evolucionismo mantém a idéia de progressão temporal, apenas invertendo a direção da seta do tempo.

Assim, poderíamos dizer que, no princípio, era o Homem. Lentamente, a espécie foi se espalhando pelo mundo e se organizando em culturas e civilizações. E então, por força da preguiça, do egoísmo e de todos os vícios a eles correlatos e conseqüentes, algumas culturas e civilizações foram se degradando, se degradando até dar origem aos macacos!

Não creio que seja difícil derivar daí todas as espécies, das mais complexas às mais simples. A mera observação dos seres humanos nos mostra que uns se parecem mesmo com cães, outros com cavalos, havendo também os que se parecem com peixes, pássaros , répteis – e assim infindavelmente. Com o perdão do trocadilho, as provas do Involucionismo estão na cara!

A vantagem da nova teoria é exatamente essa: permite explicar todo o mundo animal, preservando o historicismo evolucionista, mas sem agredir a lógica clássica, segundo a qual não é possível derivar do menos o mais, só o mais do menos. Isto é, se é impossível pensar como de macaco se passa a homem, é muito fácil imaginar como de homem se passa a macaco. E, mais uma vez, não nos faltam exemplos em nossa vida cotidiana que o demonstre de maneira quase cabal.

Creio que, a partir do Involucionismo, nunca mais veremos a Humanidade do mesmo modo. Uma simples viagem de metrô será como um mergulho no mistério original e uma visita ao Zoológico uma oportunidade para pesadas reflexões. Pois, diante da jaula dos macacos, nós, os involucionistas, não nos perderemos em consolações sobre nosso progresso desde o passado remoto, mas nas inquietantes possibilidades do nosso futuro mais ou menos imediato: ao involucionista, preocupa menos de onde viemos e muito mais onde ainda podemos chegar.