Do muito morrer

Eram copos-de-leite – lírios e vieram para anunciar o Ano Novo. Ele os lia como um crente há de ler o Evangelho, admirado e cheio de esperança. Mas os dias foram passando, o ano instalou-se e então os lírios começaram a desabar mortos um a um. Não murchavam lentamente com é próprio das flores: morriam de repente com se fulminados por um mau presságio, um pensamento ruim. Ele fingia indiferença, mas por dentro o corpo todo se amofinava; trazia o coração na mão, aprisionado como um pássaro indefeso e incerto da intenção da mão que o acolhia, se piedosa ou assassina.

Então uma das begônias morreu quase do mesmo jeito, tombada seca de um momento para o outro.

Foi quando ele entendeu. Entendeu a ira que lhe fervia lenta lá bem no fundo do coração assustado. Entendeu a ausência e o silêncio seco de palavras. Entendeu – como o moribundo deve entender que finalmente morrera, ainda que de resto tudo lhe pareça familiar.

Entendeu o que era a paz dos mortos: nada mais havia a esperar. E onde não há espera não há também esperança. E sem uma e outra, não há apego: a mão se abriu e o coração sumiu no vento, como se nem existisse, num passe de mágica.

Pediu a confirmação do silêncio: não foram poucos os velórios que acabaram em festa porque o morto desistira de morrer. Mas o silêncio permaneceu imutável por toda noite. Entendeu o que ainda lhe faltava entender: morrer pode ser um alívio. Pôde então sentir compaixão pelo morto e pelo silêncio que o matara. E rezar para que o morto reencontrasse a vida e o silêncio reencontrasse a voz.

E só então dormiu – exausto, morto.

(Morrer é tanta coisa. É dormir, sonhar e esquecer. É acordar sem chão, como pedra que flutuasse no ar. É ter a consciência inventariante e minuciosa de tudo que se teve e de tudo que se perdeu. É conhecer o definitivo e descobrir que nada há de definitivo. É morrer de novo muitas vezes a mesma morte ansiando morrê-la para sempre porque morrer é tudo que lhe resta. É morrer de novo muitas vezes a mesma morte ansiando não morrê-la nunca mais. E nunca mais é morrer sempre. Morrer é morrer infindavelmente até aprender que não se morre e descobrir que morrer é apenas não saber que se está vivo.)

* * *

Resta ainda um lírio que cumpre com dignidade o destino das flores de murchar aos poucos até secar. A outra begônia segue vivíssima, dona de si.