Da mediunidade dos livros

“…o cheiro e o sabor das coisas continuam por muito tempo, como almas, prontas a nos lembrar, aguardando e esperando pelo seu momento… Contendo na minúscula e quase impalpável gota de sua essência a vasta estrutura das lembranças…

É Proust, mas podia ser Bowles, como chegou a pensar, vasculhando inutilmente a surrada edição de “O céu que nos protege” que comprara num sebo. Acabara por encontrar frases com marcações estranhas que não reconhecia como suas. Seriam do primeiro dono do livro, que o adquirira no longínquo ano de 1991? A vontade que fossem dela – que as teria deixado lá intencionalmente, como uma espécie de mapa onde ele a pudesse reencontrar um dia – um dia como hoje – quando tudo parecesse irremediavelmente perdido – esse desejo de que fossem dela essas marcações, talvez o fizesse não se lembrar de tê-las visto antes, quando o lera, encantado pela sóbria melancolia de Bowles.

Para seu desalento, também não lembrava se chegara a lhe emprestar o livro para que ela o lesse ou se conseguira para ela um exemplar… Sua memória era lamentável – mais própria, preferia crer, para amplificar as sensações presentes do que para guardá-las numa seqüência confiável de eventos. E ainda mais em um ano de frustração, dor e incerteza – que começara com uma promessa de união e acabara em rompimento.

“Porém nenhum saber era um saber certo; o porvir sempre dispunha de mais de uma direção possível. Não se podia sequer desistir da esperança.”

Essa frase ele anotara, tocado por sua fervorosa ironia e a tinha a mão para momentos como hoje… Sabia também onde encontrar no livro alguns trechos que o haviam emocionado: “Da mesma maneira que ela era incapaz de se libertar do medo que sempre a acompanhara, ele era incapaz de escapar da jaula na qual se encerrara, a jaula que ele construíra há muito tempo para se proteger do amor”.

E um pouco mais adiante, na mesma cena: “Sabe o quê? – disse ele com grande seriedade. – Acho que nós tememos a mesma coisa. E pelo mesmo motivo. Nunca conseguimos, nem eu nem você, entrar totalmente na vida. Seguramos nela pelo lado de fora, com toda força, certos de que vamos cair no primeiro safanão. Não é verdade?”

Talvez fosse… Mas quem havia marcado no livro este outro trecho? “Especialmente com frio – um frio interno e profundo que nada podia dissipar. Embora esse entorpecimento glacial fosse a base de sua infelicidade, ele sempre se agarraria a ele, porque também era o núcleo do seu ser; ele o construíra ao seu redor.”

Teria sido ela? Ou ele mesmo? Que importava isso agora se, afinal, fora exatamente por se sentirem tão iguais que acabaram se afastando – ou ao menos era o que ela lhe dissera e ele aceitara sem outro pasmo senão pensar que era esse o exato motivo porque os outros se uniam. Os outros…

“… acabaram cometendo o erro fatal de negar vagamente a existência do tempo.”

Fora isso? Perguntava ao livro como se ele fosse um médium intermediando o diálogo impossível com alguém distante e talvez perdido para sempre.

“E ocorreu-lhe que um passeio no campo era uma espécie de alegoria de nossa passagem pela vida. Nunca temos tempo de saborear os detalhes; dizemos num outro dia, mais sempre sabendo de maneira oculta que cada dia é único e final, que nunca haverá retorno, um outro tempo.”

Um outro tempo…

“O ruído do vento na janela celebrava sua tenebrosa sensação de ter atingido um novo grau de solidão.”