Divagações sobre Nossa Senhora Desatadora de Nós

Nossa Senhora Desatadora dos Nós é uma santa incomum (ver post abaixo).
Não se trata de uma pessoa santificada, como Santa Teresinha, por exemplo, ainda que se refira a Mãe de Deus. Nem tampouco é uma aparição de Nossa Senhora, como é o caso de Nossa Senhora de Fátima.

Nossa Senhora Desatadora de Nós é simplesmente um quadro de autor desconhecido, venerado numa igreja da Bavária desde o início do século 18. Nesse sentido, ela é muito parecida com Nossa Senhora Aparecida, que é uma imagem em terracota encontrada num rio. Mas a semelhança acaba aí. Enquanto Aparecida é uma imagem comum de Nossa Senhora que tornou-se objeto de devoção pelos milagres a ela atribuídos, a Desatadora de Nós já foi criada em ação, desatando os nós de uma fita que lhe é trazida por anjos. Ela é deliberadamente a personificação de uma finalidade muito específica (e dela logo falaremos): desatar nós. E, claro, o significado de “nós” aqui é puramente metafórico e abstrato.

Enfim, Nossa Senhora Desatadora de Nós é uma santa conceitual e, por isso, moderníssima!

Digo isso, porque, ao contrário de todos os outros santos que conheço, ela não age preventivamente (não lhe rogamos proteção) nem posteriormente (não lhe pedimos que nos cure ou corrija um mal). Ela, como o próprio nome diz, opera sobre os “nós”.

O que é um nó? Intuitivamente, acho que todos concordarão que um nó é qualquer obstáculo que impeça o fluxo livre de uma corrente. Mas impeça apenas parcialmente, um entupimento, ou haveria um transbordamento ou uma explosão. Ou seja, o nó antecede o mal e pode mesmo não deixar que ele chegue jamais a se consumar como um fato negativo, mas temporário e passível de correção ou cura. O nó não é uma paralisação, mas um retardamento, um entorpecimento, que pode anteceder uma ruptura – que por sua vez, tende a ser definitiva.

Não tenho certeza, mas acho que podemos assimilar a idéia de nó a idéia de neurose. E assim, Nossa Senhora Desatadora dos Nós torna-se ainda mais moderna e pré-freudiana. Doido, não?