Do tempo

Correram depressa esses dias… Há em mim uma urgência, é certo, que nada tem a ver com calendários e relógios e que exigiria um mundo mais lento ao meu redor, de dias indistinguíveis, um eterno domingo de ruas vazias e silenciosas. Uma “urgência interior” sem uma correspondência muito exata no mundo – que ainda assim me exaspera com seus apelos e exigências, suas contas, horários, rotinas, razões, prazos, tarefas, pretextos, com seus personagens. Que tenho eu, afinal, a ver com essa gente que ocupa as manchetes com promessas e discursos, ora rídiculos, ora ameaçadores?  – e ameaçadores exatamente porque são ridículos.  Como é possível que tantos creiam nisso? Será por burrice, interesse, ingenuidade? O mais certo é que seja uma mistura disso tudo, em quantidades diferentes segundo cada um. Uma sonsice generalizada que finge não ver a falsidade evidente dos atos e das falas porque pensa usufruir deles de algum modo. Não, não tenho nada a ver com isso… Ainda que veja nisso um sinal de acelerada decadência que acabará por nos conduzir a um confronto de resultados imprevisíveis, esse mundo é ainda apenas um obstáculo incômodo, mas secundário.