Leitura e pobreza

Uma das maiores tolices sobre o baixo índice de leitura dos brasileiros ouvi agora na TV, num documentário ds TVE sobre a biblioteca de José Mindlin, foi dita por Antonio Candido. Segundo ele, o brasileiro lê pouco porque o país é economicamente injusto.

Depois até gostaria de pensar mais longamente sobre as causas da aversão à leitura dos brasileiros, mas a falta de dinheiro é a menor delas. Cito a mim como exemplo: há anos que só compro livros em sebo. Raramente gasto mais do que 20 reais em um livro, preço pago por uma edição em capa dura de Os Lusíadas, publicada como parte das comemorações do sesquicentenário da Independência. Mas o preço médio dos livros que compro é de 10 reais. Mas fuçando em sebos e feiras é comum encontrar livros ainda mais baratos.

Ou seja, quem quer ler, lê – dinheiro não é obstáculo.

18 Comentários

  1. Mas, querido, o que dizer sobre Antonio Candido? Acho que prefiro ouvir a Banda Calypso no Carnaval. Como? A Banda Calypso não tocará no Carnaval? Então fico com meu Talking Heads. Ou pode ser Coltrane mesmo. ;)Beijos

  2. ´Do improviso nasce o improvável do chão instável. Andar no instável é equilibrar-se no trapézio e tocar possíveis novas luzes, terras, fronteiras plenas de novidade.Guardar ciscos brilhantes, abri-los num outro instante e avançar. Sem medo , mas sabendo serem pensamentos sagrados. A serem sim pensados!

  3. É…as vinganças…desde o Iluminismo. Na Idade média a sociedade era estamental, impossível vingar-se e tirar alguém do poder.No início do Estado Moderno, a burguesia bem que quis vingar-se dos nobres que lhe cobravam impostos, lá na Baixa Idade Média. Não conseguiu, o Rei aliou-se à Igreja e virou divino.É…só depois é que vem a VINGANÇA. Os iluministas deram munição para jacobinos e girondinos degolarem legal a Coroa.Esta que até se recuperou com Napoleão, o mandão. Mas foi depois do Iluminismo que a pedra saiu do caminho e virou estilingue de vingança. Concordo…………..O negócio da linguagem …precisa pensar mais, eu preciso. Um texto escrito é sempre um arranjo, um tabuleiro, um interpretante que se dá ao leitor……….tempo…vou pensar.rs

  4. Eu tinha entendido . Escrever , fabular, escrever dentro da cabeça. É que avancei o raciocínio e…ele ‘desfiou’. Acontece.

  5. ‘Pera lá! rs Eu não disse q o futuro vingativo é o ato de escrever. Eu disse q fabulamos mentalmente o passado e o futuro, a tal ponto que o simples fato de ser passado não o exime de ser também uma ficção.Eu acho que é um processo contínuo ler, pensar, escrever – ou melhor ainda: ler, ordenar e descrever. Ler já seria ordenar? ou seria uma ordenação de primeira ordem? rsO contador expressa todo esse processo – e aí é já um escrever de segunda ordem! rsPorque eu acho q tem mais essa perna: o expressar – que já estaria no âmbito do teatro mesmo, mas q está implícito, presente no ato final de descrever o lido e pensado. E essa coisa de “tramar as piores vinganças” tem sido a função dos intelectuais desde o iluminismo, não!? rs

  6. Concordo, o futuro vingativo seria o ato de escrever. Lembrei do “escreveu, não leu, o pau comeu” que então ficaria “leu, sofreu, escreveu, o pau comeu”.Naturalmente lemos e escrevemos, sim! Mas a leitura, assim, atém-ser a um x não resolvido no passado constantemente projetado num Y (não necessariamente- mas também- no binômio ‘ressentimento e vingança’; talvez pudesse ser ‘bonança e mais bonança’ do ler o bom e querer o melhor).Mas voltando ao ‘ressentimento, passado;futuro, vingativo’, ‘ler para depois escrever’…Tem-se então que escrever é sempre uma conseqüência? Acho que sim, sob o ângulo do pensamento linear. Mas – aí é que está – e o pensamento inconsciente? Este pode inverter a lógica da causa e conseqüência ?Ler e escrever é natural ! E – suponho que – anterior à linguagem escrita. A emoção já se mostra presente à época da literatura oral. Os contadores de ‘causos’ eram os melhores escritores: se escrever é natural, todos escrevem, mas uns são mais exatos. É de se pensar na função dos escritores ( de todos os níveis, até os beletristas) seja os da literatura oral ou a da escrita. São eles os que tramam com exatidão as piores vinganças? rs

  7. “Sob a escravidão todos são estrangeiros”, é isso. Assim como “ o Brasil se inventa a duras penas”.E, nesse inventar-se a duras penas, está a implantação ( obrigatória) do catolicismo. Em ‘Memórias de um Sargento de Milícias’, Leonardo, pai, é apanhado – e preso – pelo Vidigal, o polícia do Rio, à época de D.João VI, porque entregava-se a uma sessão de umbanda (queria conquistar uma cigana). Nesse capítulo, a presença dos cultos africanos como um dos forjadores da brasilidade ( o negro foi mestre alquimia do sincretismo religioso). O Romantismo é a 1ª escola literária que busca a idéia de nação. No Brasil, o nacionalismo aparece bem urdido, na obra de José de Alencar, mas, em especial, na linguagem, abundante no vocabulário indígena, nas descrições da exuberância da natureza tropical. Mas esse índio comporta-se como um cavaleiro medieval. É um europeu vestido com cocar. Só mais tarde, modernismo vai referendar o “Só a antropofagia nos une”.“Sob a escravidão são todos estrangeiros”, fico com essa frase exata.Quanto às contradições, acho que são o risco que o sujeito do pensamento precisa correr.

  8. Mas eu estava pensando outra coisa antes de dormir… Pensava q, por outro lado, lemos o tempo todo o ambiente ao redor. E fabulamos o tempo todo, formulando e reformulando nossos ressentimentos e vinganças, prisioneiros entre dois “se” – um que remete ao passado ressentido e outro que remete ao futuro vingativo. Quer dizer, naturalmente lemos e escrevemos, por outro lado. Não é engraçado?

  9. Sobre esse papo de erudito e popular eu me pergunto até que ponto uma nação manchada pela escravidão pode ser pensada nesses termos ideiais (não se espante se eu contradisser muitas vezes aqui…). Porque a escravidão bloqueia qualquer ideia de nação. Sob a escravidão todos são estrangeiros, ninguém pertence ao lugar. Então o Brasil é algo que se inventa a duras penas. Ness sentido entendo o que vc disse do Modernismo. Havia uma cultura erudita q tinha horror ao Brasil e uma cultura popular q nem se sabia brasileira. Talvez o unico traço comum, talvez o único vestigio de brasilidade, fosse dado pela religião católica, não sei.Mas era mesmo preciso misturar o conteúdo dos dois vasos, coisa, claro, que já vinha sendo feita há muito tempo de um modo não-programático, digamos assim. O Modernismo como todos os ismos culturais do começo do século queria ser a vanguarda da revolução a caminho…

  10. O ser humano , Antonio, é bicho de andar , correr. Não nasceu pra ficar sentado.Eu sempre digo pros alunos que é preciso forçar – feito ajoelhar no milho – só aí vem o prazer da leitura. Deve dar trabalho fazer um barco, mas em alto mar é uma beleza, deve ser. Ainda q em aula eu comece os livros, interpretando feito no teatro, não iludo ninguém: depois é preciso forçar. Um truque que ensino – e faço comigo desde os meus 13 anos – é ler em voz alta e andando.Concordo plenamente que a leitura não é natural do bicho que somos. Rubem Alves,emérito professor da Unicamp, prega o prazer da leitura, que é besteira ler os clássicos. Ler só o que dá prazer. Discordo. Tenho 23 anos de prática com jovens.Sabe a Opera de Pequin? Os meninos tinham de andar na neve para ficar com a voz boa. O exemplo é exagerado , nem tanto sacrificio é ler, mas vá lá. Nem tudo é só prazer. E o que se pretende hoje é facilitar tudo.

  11. Oswald de Andrade propunha – assim como a maioria dos modernistas – os falares do povo, inclusive, todos os barbarismos! Ele dizia algo como ” um dia o povo ainda vai comer o fino biscoito da minha poesia”…Acho que o Modernismo fez bem em valorizar a cultura popular , até então desprezada pela elite. Parece que, em correspondência, Mario de Andrade seduziu Carlos Drummond para a cultura brasileira – o Drummond mais jovem preferia a européia.Drummond não só aceitou como trabalhou a cultura popular em sua obra. Vale dizer q era marxista , como vários modernistas.O Modernismo foi além da incorporação da cultura popular, foi liberdade de expressão que incluía até o uso de erudição. Manuel Bandeira,o dos últimos livros, abandona o coloquialismo, assume texto mais sóbrio.Tudo para dizer que concordo com a idéia do marxismo de galinheiro. Mas só me pergunto se foi só ele o responsável pela esculhambação da cultura erudita. E se a gente pensar no cinema dos anos 1960 pra cá?

  12. Agora, quanto ao ato simples de ler, quero escrever tb outra coisa que já repeti diversas vezes: ler é a coisa mais antinatural e antihumana que existe. Exige tudo que o bicho homem detesta: solidão, silêncio e concentração. O sujeito não tem que ser apenas incentivado a ler. Ele tem que – como no meu tempo de escola – SER OBRIGADO a ler. E mesmo assim os resultados serão medíocres. Porque, reafirmo: o ser humano por si mesmo detesta ler. Há, claro, essas almas mais velhas que amam os livros. Mas serão sempre uma minoria. Aquela minoria que está condenada a governar a maioria de iletrados funcionais que vivem exclusivamente para as suas paixões imediatas. Democracia e humanismo foram os meios que essa mesma elite criou para se proteger e aos iltrados da tentação da tirania.

  13. Também concordo sobre a necessidade do incentivo. Mas eu gostaria de pensar até que ponto a “invenção do brasileiro” pelo nosso marxismo de galinheiro criou um “povo brasileiro” que despreza a “cultura formal” associada ao branco, ao europeu, ao colonizador, ao opressor e cujo resultado final é ninguém menos que o Lula, o “herói sem nenhumcaráter” a presidir a nação. É com prazer q opomos à cultura formal uma “sabedoria popular” inata (não esqueçamos a mãe do Lula q nasceu analfabeta!)e depois desenvolvida nas ruas – e que a cultura só viria roubar a inocência e a sagacidade. O “povo brasileiro” é samba, carnaval, futebol, é a esperteza, etc. Idolatra-se Zumbi como uma espécie de pré-Fidel Castro, mas tratamos Machado com reservas (Antonio candido mesmo, nessa entrevista que vi). Enfim, nada na imagem que criamos do “povo brasileiro” induz à leitura, à inserção nessa dimensão mais complexa, ampla, ambígua e universal qeu podemos chamar de “alta cultura”. O marxismo de galinheiro tratou desde cedo de opor “cultura erudita” e “cultura popular” – oposição falsa e artificial. E nem sequer imagine-se q ao menos o galinheiro é nosso: mesmo ela é importação dos “relativismos” europeus que querem “desconstruir” a cultura ocidental. Apenas climatizamos a coisa pra que ela não derretesse nesse calor de matar.

  14. Concordo que o gosto pela leitura se adquina na infância, a partir da família e da escola. Mas o caso é que nem a família e nem a escola incentivam. Por quê?Mas concordo. Meu dia-a-dia é incentivar alunos à leitura. E consigo.

  15. É preciso considerar que só haverá bons leitores havendo bons incentivadores… A questão, realmente, não é a pobreza. Nem a de espírito – na minha opinião. É o gosto pela leitura; que se adquire na infância, a partir da família e da escola.

  16. estava pensando nisso agora, meu amigo.A causa da falta de leitura aqui no Brasil é a pobreza de espírito, ou como queira, pobreza mental…pobreza de ser…Hum…lido com isso há anos. Dou aula pra classe-média e nobody gosta de ler.Amo Antonio Candido! mas aí ele falou besteira mesmo.

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