Um barco no ar

“Recuperação da adolescência: é sempre mais difícil ancorar um navio no espaço.” 

Um dia, há muito, muito tempo – quase outra vida – quando ele se sentia irremediavelmente perdido, condenado a um fim que jamais se consumava, se arrastando sem dor nem ênfase, falso fim de uma falsa vida, avesso de si, sonso moribundo confinado em si mesmo, esse poema de Ana Cristina César lhe grudara na alma feito tatuagem, gotejando a ironia que era seu único alimento, resumo-enigma ressoando feito koan em seu deserto de monge sem mestre, delirante e lúcida miragem…

A mesa do bar ao ar livre estava cheia de garrafas de vidro escuro, que contrastavam com o céu muito claro e sem nuvens da tarde quente, e o lado em branco da folha de uma propaganda qualquer era para ele um desafio – como tudo mais, afinal. Como tudo mais, exigia uma resposta, um rabisco ao menos que lhe maculasse a brancura interrogante, um ruído qualquer que quebrasse esse silêncio deserto – ou outra dose que o arrastasse para mais além…

“Ancorar um navio no espaço”. Gostava dessa imagem… Pegou a folha e bem devagar, com minucioso cuidado, a foi dobrando – primeiro, pela metade; depois, de novo, fazendo com que as extremidades superiores se encontrassem bem no meio da folha; em seguida, cobriu as dobras com o resto de papel que sobrara livre. A folha ganhou a forma de um chapéu, desses que as crianças aprendiam a fazer para brincar de soldado. Desde muito menino, desenvolvera a arte da dobradura e nunca a perdera, apesar de tudo. Agora, um calor invadira seu coração gelado: sabia exatamente onde queria chegar.

Mais duas dobras e algumas manobras hábeis e sutis e a folha ganhou a inesperada forma de um barco. Um barquinho de papel todo branco! Com a reverência ritual de quem se dirige ao íntimo Deus que cada um trás dentro de si, encaixou com delicada precisão o barquinho no gargalo de uma garrafa. E lá ele ficou a tarde toda, pousado no ar, imune ao vento e a indiferença dos passantes.

***

Então, mesmo agora quando já não há mais desertos – e o silêncio que há é o dela deitada ao seu lado vendo as gaivotas (que ela chama de fragatas) cruzarem o céu muito claro e sem nuvens da tarde quente – se de repente a negação de novo lhe ameaça comprimir o coração (que ainda se assusta às vezes por saber que sua força reside em sua delicadeza) ele lembra que é sempre mais difícil ancorar um navio no espaço…