A busca

“O que eu busco?”, interrogava-se enquanto avançava lentamente no trânsito engarrafado do fim da tarde. Filosofia, física, metafísica, teatro, poesia, meditação, capoeira: o que buscava, afinal? “Uma ciência do singular”, foi o que lhe ocorreu responder para si mesmo.

Ultimamente, reparara que, em contraste com as inúmeras tentativas de uma “teoria geral  e definitiva do homem e do mundo”, havia os homens, os seres. Era como se todos os pensadores buscassem chegar ao Ser para depois descer aos seres.

No entanto, todas as teorias e práticas lhe pareciam verdadeiras e proveitosas, como se cada uma se adequasse a um tipo exato de homem numa escala de muitos degraus. “Tudo é bom”, lembrou mais uma vez o que lhe dissera um amigo muito querido. 

Então, consciente ou inconscientemente, todas as teorias e práticas seriam como modelos de autoconhecimento próprios para cada ser, em cada época e cultura, em cada degrau. Teorias e práticas para conduzir cada um ao conhecimento singular de si mesmo. Um conhecimento minucioso que abarcaria desde o extremo imponderável de supostas encarnações passadas ou futuras a um diálogo permanente com o próprio corpo, órgão por órgão. 

De posse desse conhecimento, dessa prática contínua, cada um estaria então habilitado a olhar o outro de fato em sua singularidade, a olhar o outro tal qual ele é e se mostra. Uma teoria que será tanto mais precisa quanto o autoconhecimento o for. Isto é, a medida do conhecimento do mundo possível a cada um é a extensão do autoconhecimento que alcançou.

Só sabendo quem se é, pode-se humildemente tentar conhecer o mundo, os seres, um outro homem.

E como medir a extensão desse autoconhecimento? Como não nos iludirmos a esse respeito? A resposta parecia simples: pelo tamanho do ego. Quanto mais se acredita que se é um nome com uma ascendência precisa, uma coleção de gostos e aversões, um ser espirituoso e cheio de personalidade, menos de fato se conhece de si. “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus”, era essa a máxima de Jesus, tão mal interpretada e às vezes retraduzida para não afrontar com a expressão “pobres de espírito” a dominante “cultura do ego”.

Ao contrário, se havia algo em comum a todas as teorias e práticas era esse apelo ao esvaziamento do espírito, à destruição do ego. “Destruição” talvez fosse uma palavra forte demais: o ego deve ser ultrapassado como quem deixa para trás uma roupa velha que nos foi muito útil, mas que o crescimento tornou inadequada. Lembrou de outra passagem do Evangelho em que Jesus diz: “Se quiserem levar tua túnica, deixa que levem também o manto”.

Só depois que se deixa cair essa “máscara” – não por acaso, “persona” em grego – se está apto ao autoconhecimento que conduziria a tal “ciência do singular” que, em resumo, seria simplesmente ter um olhar despido e atento para cada ser. Só assim seria possível “Amar o próximo como a si mesmo”.

A física quântica, ao abordar o mundo sob uma perspectiva probalística, dera um passo importante na direção dessa “singularização do conhecimento”, mas o que lhe parecia claro era que a matriz de todo o conhecimento possível a cada um estava dentro de cada um.

“Conhece-te a ti mesmo” era o caminho. Um estranho caminho, no entanto. Porque há várias estradas largas e bem pavimentadas, várias… Mas cada um deve em algum ponto abrir o seu próprio caminho na densa mata, no árido deserto ou no mar ambíguo que circundam essas estradas. A imagem, a despeito de parecer vulgar, traduzia com exatidão o que agora percebia.