8 Comentários

  1. Veja-se, por exemplo, a máxima: “A verdade é sempre subjectiva”. A afirmação não pode portanto excluir apossibilidade de um sujeito ser capaz de alcançar uma “verdade objetiva” subjetivamente. Acho q “para além” da simples oposição (insolúvel) entre “objetivo” e “subjetivo” o que se pode extrair dessa máxima – “para além” do próprio N. – é:1) toda verdade é a verdade de um sujeito. O sujeito é o limite da verdade, que permanece assim ilimitada…2) A verdade é uma experiência. Uma experiência obviamente subjetiva, pessoal, intrasmissível. Ela pode ser narrada talvez, descrita, mas seu alcance total está “para além” das palavras. 3) Todo verdade só pode ser experimentada por um corpo, porque toda experiência é física e mental. Mas não podemos como homens admitir uma mente sem corpo, não NESTA vida – que é a única que nos importa, que deve nos importar, NO MOMENTO.

  2. Ainda “eu e minha busca” e o que me aproxima e afasta de N.: ‘além de bem e mal” pouco me diz, pq esses conceitos me parecem pra lá de naturais, de “instintivos” – para ficar numa terminologia nietzschiana: todo mundo sabe o que é bom e mau, bem e mal – ninguém gosta de sofrer violência e é em torno disso que se criam as leis, acho.”Minha busca” tem sido ir “além do prazer e da dor” – não no sentido de recusar a dor ou o prazer, mas de aceitá-los sem apego. Aceitá-los como fatos da vida: ambíguos e impermanentes como todos os fatos da vida.Porque eu quero a vida – no sentido que eu não sou um monge – mas não quero estar submetido à vida e suas “exigências de continuidade” – no sentido em que nã quero ser mundano, “fútil, cotdiano e tributável”.Meu primeiro insight mais claro nesse sentido está numa crônica chamada “Numa esquina de Ipanema”.Ali de repente entendi a relação entre sexo e vida, ou porque o apelo sexual é tão forte, tão essencial, tão primário. E, por outro, exatamente por isso, pq as filosofias todas ou quase todas exigem que o discípulo se distancie do sexo (ou da vida, dá no mesmo). Nã há nada de moral exatamente nisso – ao menos não no primeiro momento. Claro, quando as filosofias se “vulgarizam”, quando se tornam “acessíveis às massas”, fica-se com a síntese da conclusão (ou o “resumo do resumo”) e deixa-se para trás todo o resto. Enfim, ao final resta apenas a regra sem argumento, sem o menor traço de singularidade. Porque, primeiro, essa renuncia genuína não é, nem pode ser, “para todos”. Esse outro aspecto em que me aproximo de Nietzsche: a ditadura da igualdade é abominável pq logo se reduz à tirania pura e simples.Mas exatamente por isso não se pode recusar nada, nenhuma filosofia, nenhuma religião – cada um será sempre adequada a alguém. Mas com eu disse, ninguém escapará de em algum momento ter de se afastar da grande via e se embrenhar em si mesmo.Mas se não sou nem quero ser mundano nem santo logo o espaço que me cabe é necessariamente muito singular – ou numa palavra menos amena: muito solitário. E isso me aproxima de N. – que se dizia “um escritor póstumo”. Eu já disse escrever para “mortos e não-nascidos” – mas isso hoje me soa com um exagero retórico. Hoje me contento em admitir que ainda nem comecei a escrever; que tudo que fiz até hj foram “ensaios”. Acredito ter escrito crônicas ao mesmo tempo bonitas e cheias de sentido, onde consigo expressar com delicadeza o que penso e sinto. Mas ainda é pouco: os solitários são ambiciosos. “Talvez por ressentimento?” me provoca uma voz certamente nietzschiana…Mas essa solidão às vezes me assusta. Irrealista ou hiperrealista?

  3. Citei acima um trecho do patético verbete sobre N. na Wikipédia em português. Sendo nietzschiano, eis ali um sintoma do que foi do pensamento: uma incrivel colcha de retalhos onde todo mundo se sente a vontade para colar um pedaço sem nem se preocupar com o q lhe está ao redor. Chega a ser risível…Quem quiser conferir: http://pt.wikipedia.org/wiki/Friedrich_Nietzsche

  4. “Este período termina brutalmente em 3 de Janeiro de 1889 com uma “crise de loucura” que, durando até à sua morte, coloca-o sob a tutela da sua mãe e sua irmã. No início desta loucura, Nietzsche encarna alternativamente as figuras míticas de Dionísio e Cristo, expressa em bizarras cartas, afundando depois em um silêncio quase completo até a sua morte.”Essa divisão entre Cristo e Dionísio, expressa, acho, com exatidão “o que é” Nietzsche.Sua idealização da dor pretende ter algo de “aritocrático e guerreiro”, algo de vital, mas me parece reproduzir o pior do cristianismo – e de todas as religiões: o masoquismo histriônico. O estoicismo nietzschiano é enfatuado e autopiedoso e tem pouco de “romano”, acho eu (Mas de estoicismo meu amigo Waldemar Reis poderia falar muito, muito melhor).E, apesar de tudo, Nietzsche não escapa à tentação alemã, à tentação d seu tempo, de chegar a “filosofia final e definitiva”, ao “sistema geral” que explique tudo. Enfim, a chegar a uma religião – como Kant, com Hegel, como talvez Schopenhauer. É disso que quero distância. Ao menos neste momento acho que há verdade em tudo – até na fraude! Ou que qualquer das vastas avenidas que se abrem à nossa frente – os grandes sitemas de pensamento (ou de crença, dá no mesmo) – servem, a depender apenas de quem cada um de fato é. Mas nenhum deles nos eximirá de, se queremos mesmo alcançar algo de “mais profundo”, algo de “verdadeiramente verdadeiro”, nenhum deles nos eximirá de em algum momento abandonar a estrada e abri nosso próprio caminho, o atalho pessoal que ninguém pode prever onde dará, através da densa mata, do árido deserto, do árduo oceano.

  5. O Crepúsculo do Ídolos é um painel do pensamento de Nietzsche, acho. Estão lá todos os conceitos, todas as contradições, todas as ilusões e delírios, toda inconsistência argumentativa, todo o brilho intuitivo. Enfim, tudo…N. é um personagem riquíssimo, e por isso, ambíguo e contraditório. sua aversão à Igreja é puramente luterana – ainda q depois se estende (excessivamente, acho eu) a todo o Cristianismo.Em O Crepúsculo as contradições aparecme de modo claro. N. para perceber que a idealização da vontade de poder conduz a brutalização e à violência e por isso, em contrapartida, valoriza a astúcia e outras qualidades que aparecem associadas aos seres inferiores, ao chandala. N. me parece aquele menino que não sendo forte o suficiente para estar entre os mais fortes (os guerreiros) também não quer estar entre os fracos (os padres) e assim acaba um solitário – um moralista (ou imoralista, como ele prefere se autodenominar; mas o imoralista é ainda um moralista).Sua percepção algo hiperbólica da vida me encanta e está muito próxima do que eu percebo, mas acho que oculta um certo horror de N. pela vida – e meu também?Compartilho com ele tb o desprezo por Kant, por Hegel, (de Schopenhauer não me sinto à vontade para falar, mas desconfio que sentirei o mesmo). Também não tenho o menor saco para Platão & Sócrates (em algum momento de O Crepúsculo, N. fala em dialética ingenua" para classificar aqueles diálogos enfadonhos).

  6. Tenho com Nietzsche uma relação ambígua. Acabo de reler O Crepúsculo dos Ídolos, que é meu preferido dele. A idéia de que “todo pensamento é sintoma” é genial e tem uma consequência, acho, que N. não parece ter percebido, ao menos não nesse livro: o limite da verdade é o sujeito.O que é demais para o meu “espírito moderno” são suas oipniões sobre democracia, moral cristã, relação homem e mulher, e por aí vai…Nunca se ousou aplicar a N. seu próprio remédio, não que eu saiba: nunca analisou que sintomas seu pensamento expressa.De um modo geral e provisório, eu diria q o N. crítico é genial, mas o N. formulador é ruim, demasiado ruim.Conceitos como “vontade de potência”, “eterno retorno”, apolíneo e dionisíaco” me dizem muito pouco e sendo nietzschiano com N. eu diria que refletem não só “espírito da época”, como o “espírito alemão” e, claro, o próprio Nietzsche.Mas, repito, “todo pensamento é sintoma” é uma intuição e tanto! E toda essa tentativa – que fica a meio caminho – de resgatar o corpo coincide com a minha busca hoje.Mas fiquei curioso de saber quem é esse anônimo que me conhece tão bem…

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