Como vejo Nietzsche

Por sugestão da Rose, reuni num único post uma série de comentários que fui fazendo hoje de manhã sobre minha leitura de Nietzsche estes dias… 

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“Juízos, juízos de valor sobre a vida, a favor ou contra, nunca podem ser em última instância verdadeiros: eles só possuem o valor como sintoma, eles só podem vir a ser considerados enquanto sintomas.” (…) “Em si, tais juízos são imbecilidades. É preciso estender então completamente os dedos e tentar alcançar a apreensão dessa finesse admirável, que consiste no fato de o valor da vida não poder ser avaliado. Não por um vivente, pois ele é parte, mesmo objeto de litígio, e não um juiz; não por um morto, por uma outra razão.”
Frederich Nietzsche, em O Crepúsculo dos Ídolos

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Tenho com Nietzsche uma relação ambígua. Acabo de reler O Crepúsculo dos Ídolos, meu preferido. A idéia de que “todo pensamento é sintoma” é brilhante e tem uma consequência, que Nietzsche não parece ter percebido, ao menos não nesse livro: o limite da verdade é o sujeito.

O que é demais para o meu “espírito moderno” são suas opiniões sobre democracia, moral cristã, relação homem e mulher, e por aí vai…
Nunca se ousou aplicar a Nietzsche seu próprio remédio, não que eu saiba: nunca se analisou que sintomas seu pensamento expressa.
De um modo geral e provisório, eu diria que o Nietzsche crítico ou psicólogo é genial, mas o Nietzsche formulador é ruim, demasiado ruim.

Conceitos como “vontade de potência”, “eterno retorno”, apolíneo e dionisíaco” me dizem muito pouco e sendo nietzscheano com Nietzsche eu diria que refletem não só o “espírito da época”, como o “espírito alemão” e, claro, o espírito do próprio
 Nietzsche.
Mas, repito, “todo pensamento é sintoma” é uma intuição e tanto! E toda essa tentativa – que fica a meio caminho – de resgatar o corpo coincide com a minha busca hoje.

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O Crepúsculo do Ídolos é um painel do pensamento de Nietzsche, acho. Estão lá todos os conceitos, todas as contradições, todas as ilusões e delírios, toda inconsistência argumentativa, todo o brilho intuitivo. Enfim, tudo… Nietzsche é um personagem riquíssimo, e por isso, ambíguo e contraditório.  

Em O Crepúsculo as contradições são claras. Nietzsche parece pereceber que a idealização da vontade de poder conduz a brutalização e à violência e por isso, em contrapartida, valoriza a astúcia e outras qualidades associadas aos seres inferiores, aos chandalas. 

Sua percepção algo hiperbólica da vida me encanta e está muito próxima do que eu percebo, mas acho que oculta um certo temor à vida – meu também? Talvez… Compartilho com ele o desprezo por Kant, por Hegel, (de Schopenhauer não me sinto à vontade para falar, mas desconfio que sentirei o mesmo). Também não tenho o menor saco para Platão & Sócrates.

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“Este período termina brutalmente em 3 de Janeiro de 1889 com uma “crise de loucura” que, durando até à sua morte, coloca-o sob a tutela da sua mãe e sua irmã. No início desta loucura, Nietzsche encarna alternativamente as figuras míticas de Dionísio e Cristo, expressa em bizarras cartas, afundando depois em um silêncio quase completo até a sua morte.”

Queria ler essas cartas… Essa divisão entre Cristo e Dionísio, talvez seja a expressão mais exata de “o que é” Nietzsche.

Sua idealização da dor pretende ter algo de “aritocrático e guerreiro”, algo de vital, mas me parece reproduzir o pior do cristianismo – e de todas as religiões: o masoquismo histriônico. O estoicismo nietzscheano é enfatuado e autopiedoso e pouco tem de “romano”, acho eu.

E, apesar de tudo, Nietzsche não escapa à tentação alemã, à tentação de seu tempo, de chegar a “filosofia final e definitiva”, ao “sistema geral” que explique tudo. Enfim, a chegar a uma religião – como Kant, com Hegel, como talvez Schopenhauer. Nietzsceh sei diz um imoralista – mas um imoralista é sempre também um moralista (um moralista dos tempos futuros?).

É disso que quero distância. Ao menos neste momento acho que há verdade em tudo – até na fraude! Ou que qualquer das vastas avenidas que se abrem à nossa frente – os grandes sistemas de pensamento (ou de crença, dá no mesmo) – servem, a depender apenas de quem cada um de fato é. Mas nenhum deles nos eximirá de, se queremos mesmo alcançar algo de “mais profundo”, algo de “verdadeiramente verdadeiro”, nenhum deles nos eximirá de em algum momento abandonar a estrada e abrir nosso próprio caminho, o atalho pessoal que ninguém pode prever onde dará, através da densa mata, do árido deserto, do árduo oceano.

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Ainda “o que me aproxima e a fasta de Nietzsche”: “além de bem e mal” pouco me diz, porque esses conceitos me parecem pra lá de naturais, de “instintivos” (para usar a terminologia nietzscheana): todo mundo sabe o que é bom e mau, bem e mal – e a chave desse saber é a aversão à violência e à dor. Não tanto aversão de praticá-la, mas de sofrê-la.

A maioria concorda em abrir mão da violência por uma questão meramente probabilística: é mais provável que venha a ser vítima dela do que seu perpetrador. Abrem mão de um prazer em troca de segurança (eis uma “interpretação bastante nietzscheana dos homens e suas motivações!).

“Minha busca” tem sido ir “além do prazer e da dor” – não no sentido de recusar a dor ou o prazer, mas de aceitá-los sem apego. Aceitá-los como fatos da vida: ambíguos e impermanentes como todos os fatos da vida. Porque eu quero a vida – no sentido em que eu não sou um monge – mas não quero estar submetido à vida e suas “exigências de continuidade” – no sentido em que não quero ser mundano, “fútil, cotdiano e tributável”.

Minha intuição mais clara nesse sentido está numa crônica chamada “Numa esquina de Ipanema”.
Ali de repente entendi a relação entre sexo e vida, ou porque o apelo sexual é tão forte, tão essencial, tão primário. E, por outro, exatamente por isso, porque as filosofias todas ou quase todas exigem que o discípulo se distancie do sexo (ou da vida, dá no mesmo). 

Não há nada de moral nisso – ao menos não no primeiro momento. Claro, quando as filosofias se “vulgarizam”, quando se tornam “acessíveis às massas”, fica-se com a síntese da conclusão (ou o “resumo do resumo”) e deixa-se para trás todo o resto. Enfim, ao final resta apenas a regra sem argumento.

Pode-se refutar: “Nada há além da carne”. Mas pode-se objetar em seguida: “É você quem diz. É você que não vê”. Nesse âmbito, prefiro cauteloso Wittgenstein…

Porque, primeiro, essa renuncia genuína não é, nem pode ser, “para todos”. Esse outro aspecto em que me aproximo de Nietzsche: a ditadura da igualdade é abominável porque logo se reduz à tirania pura e simples.

Mas exatamente por isso não se pode recusar nada, nenhuma filosofia, nenhuma religião – cada uma será sempre adequada a alguém. Ou perecerá. Mas com eu disse, ninguém escapará de em algum momento ter de se afastar da grande via e se embrenhar em si mesmo.

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Ainda sobre as contradições de Nietzsche – ou sua falta de percepção das consequências de suas afirmações – veja-se, por exemplo, a máxima: “A verdade é sempre subjetiva”. A afirmação não pode, portanto, excluir a possibilidade de um sujeito ser capaz de alcançar uma “verdade objetiva” subjetivamente. 

Acho que”para além” da simples oposição (insolúvel) entre “objetivo” e “subjetivo” o que se pode extrair dessa máxima – “para além” do próprio Nietzsche – é:
1) Toda verdade é a verdade de um sujeito. O sujeito ?
? o limite da verdade, que permanece assim ilimitada…

2) A verdade é uma experiência. Uma experiência obviamente subjetiva, pessoal, intrasmissível. Ela pode ser narrada talvez, descrita, mas seu alcance total está “para além” das palavras. Ela só pode ser – em sua totalidade – experimentada.

3) Todo verdade só pode ser experimentada por um corpo, porque toda experiência é física e mental. Mas não podemos como homens admitir uma mente sem corpo, não NESTA vida – que é a única que nos importa, que deve nos importar, NO MOMENTO.