Versos ao vento

Desde que voltara, ainda não conseguira ir à praia. Quando fazia sol, não tinha tempo; quando tinha tempo, não fazia sol. Sentia falta do mar. Gostava do mato, de sua minuciosa, sempre surpreendente e inumerável diversidade onde tudo é sempre muito, tantas são as árvores, os insetos, os pássaros, os cheiros, os ruídos. 

Mas era na aridez da praia onde se sentia ele próprio. A economia da paisagem o acalmava. Apenas mar, areia, pedra, céu, nuvens eventuais, peixes invisíveis e raras gaivotas, às vezes longinquas, às vezes quase ao alcance da mão. E, gente – gente chegando aos poucos; gente, mais gente, muita gente, gente demais: e então era hora de ir embora. Por isso, procurava chegar bem cedo, o mais cedo que pudesse, para sair assim que a praia começasse a encher além da conta. Não que não gostasse de gente, mas a essência da praia era a imensidão e o vazio.

O sábado amanhecera incerto, mas logo que o primeiro raio de sol legítimo – quente, luminoso e firme – abriu caminho pelas frestas da cortina e desenhou seu rosto redondo e vazio na parede, partiu sem vacilar para a praia. Levou consigo Walt Whitman, “The Portable Walt Whitman”, a quem prometera carregar para todos os cantos da cidade. 

Sim, desde a primeira página percebera que se tornaria impossível viver sem a presença diária de Walt Whitman lhe sussurrando poemas que o enchiam de uma alegria que só Mozart era capaz até então. “Como pudera viver tanto tempo sem Walt Whitman?”, ele se perguntava, enquanto lia para o vento os versos de Song to Myself. 

Imaginava as palavras se espalhando pela cidade junto com o sol até chegar à janela dela e tomar seu quarto sem cerimônia. E então ela despertará da tirania de um estranho sonho que lhe entorpecia a alma e roubava parte do vigor e da alegria. Era isso! Despertar para o sim e para o agora. Despertar o corpo sob a alma adormecida. Despertar. Como explicar que não há culpa quando se está dormindo? Como explicar que não há culpa quando se está desperto? Como explicar que não há culpa e que não importa o passado, porque o passado é sempre a precária escada que usamos para chegar até aqui, até agora – que é sempre só o que existe? Como explicar? Para que explicar? Basta esse sol na praia quase vazia e os versos de Walt Whitman. Basta acreditar que merecemos.