Gran Torino

Sou fã de Clint Eastwood, de todos os Clint Eastwood que existem: o diretor, o ator, o ícone; o músico, o produtor. Uma das brincadeiras do meu repertório é fingir que não sei quem teria forjado a máxima “Never complain, never explain” (“Nunca se queixe, nunca se explique”): se Clint ou Wittgenstein (Na verdade, acho que se trata de um desses ditados anônimos que resumem o espírito de uma época, de um povo, de uma pessoa).

Foi com esse olhar que assisti “Gran Torino”. Certamente não é o melhor Eastwood, mas tem sua marca autoral: a câmera bem natural, com os cortes fluindo quase invisíveis, sem firulas, sempre a serviço da narrativa, sem supresas. Gosto disso, de narrativas competentes, de estilos secos e exatos.

Talvez seja mera obviedade ter sentido um certo clima de despedida no filme: no próximo dia 31 de maio, Clint fará 79 anos.

Há diversas interpretações sobre o filme, especialmente as sociológicas. Nesse sentido, eu ressaltaria um aspecto que parece evidente: a América é a terra dos imigrantes. E, em especial, para dar um tom mais ideológico: dos imigrantes que lutam por liberdade, “The land of opportunity”. Essa é a crença que embala o filme e, creio, o próprio Eastwood.

Sob o ponto de vista individual, psicológico, ético, é um filme sobre o apego e desapego, o valor da vida, e, sobretudo, um filme sobre o amor. O consciente martírio é a fórmula de Kowalsky para sintetizar todos esses conceitos num ato único.

A iminência da morte fisiológica (Kowalsky cuspindo sangue anuncia próximidade da morte) “enfraquece” o martírio, porque sua escolha acaba por soar como mera antecipação do inevitável. Mas também pode ser visto, me ocorre agora, como uma “vitória sobre a morte” e, portanto, sobre a própria Natureza. Nesse sentido, a gang é uma “metáfora da Natureza”, de sua racionalidade perversa, enquanto Kowalsky encarna o Homem e seu “dilema civilizador”: produzir justiça e não vingança – isto é, não aderir, ou melhor até, renunciar à “violência natural” e impor-se a disciplina civilizatória que, ao reprimir os impulsos, instaura a liberdade (individual) e a igualdade (coletiva).

Não é um filmaço, mas, no final,  Clint ao piano (suspeito) cantando com voz sussurrada sua balada “Gran Torino”, enquanto o carro se perde na estrada que margeia “a grande água” (um lago, um rio, o mar?) é um charme comovente e inesperado.