Dos livros velhos

Todo começo de ano faço ao menos uma promessa que, sei, não irei cumprir: ‘Este ano, não vou comprar livros”. Eu já tenho livros de sobra. Livros suficientes para uma vida ou duas. Livros que me teriam tornado sábio se os tivesse lido todos. Pois, como todo sujeito que adora livros, nem sempre leio os livros que compro, e quando os leio, nem sempre os termino. Posso largar um livro pela metade, começar pelo meio, ler apenas uma parte, me encantar apenas com o título… O mais comum é ler vários ao mesmo tempo e terminar, quem sabe, um ou dois.

Logo nas primeiras semanas do ano, a promessa é atenuada: “Este ano, comprarei menos livros”, e estabeleço como critério o grau de “interesse imediato” que o livro me provoca. Porque há certos encontros que são, digamos, mediúnicos: você pensa um livro ou autor e dá de cara com ele em seguida. Ou simplesmente calha dele estar intimamente relacionado com outro que estou lendo. Enfim,esse parece um critério justo. Mas, claro, ele também é facilmente manipulável, como tudo mais, se a má intenção se instala. Então o jeito é ser honesto e deixar sempre uma margem para o “irresistível”.

E é nessa categoria que enquadro este livro que agora carrego para cima e para baixo, onde quer que eu vá e haja uma presumida espera. Levo-o então como quem convida um amigo para que lhe faça companhia, uma amigo que gostamos de ouvir ou de estar simplesmente junto.

Antes, uma digressão a guisa de suspense. Há anos não compro livros novos. Para não dizer “nunca”, direi “raramente”, muito raramente. Porque são caros. Aliás, acho mesmo que os livros seguem uma lógica errada. Deveriam ser laçados muito baratos e, se o merecessem, ir ganhando valor com o tempo… Boa parte do que se lança são livros sem a menor importância, que quase nada têm a dizer ou, pior, propalam o erro e o engano. Ou seja, não são livros: são resmas de papel bem encapadas e cobertas de letras inúteis ou mentirosas. Desses, alguns costumam ser um sucesso! Há, claro, muita coisa boa ou ao menos tentadora. Como as editoras se obrigam a tiragens altas para baratear o custo primário do livro e permitir que a venda de apenas uma parte cubra o investimento total da produção, é certo que haverá encalhe. Prefiro então esperar e ir ao encontro deles no balcão de saldo dos sebos.

O que não significa que despreze os livros usados ou simplesmente velhos. Acontece que há maus leitores, que cuidam mal de seus livros; e há maus editores, que os imprimem em papel vagabundo e mal encadernados. Fora esses, os livros velhos e usados me comovem ainda mais. São como essas trilhas que descobrimos às vezes no meio do mato, onde se percebem os sinais da passagem de outros seres.

Então como não me encantar com esta edição de bolso de Walt Whitman que agora carrego comigo para todo canto? Foi amor à primeira vista. O livro é mais velho do que eu e está inteiro! A capa encardiu um pouco, mas as páginas do miolo continuam brancas. Apesar do formato de bolso (The Portable Walt Whitman tem exatos 18 por 11,5 cm) e das quase 700 páginas, a encadernação de qualidade permanece intacta, sem que nenhuma folha tenha se soltado. A lombada, sim, ganhou no alto um pedaço de durex e certamente merece mais outro embaixo, além de um reforço em toda a extensão, exatamente na marca onde o livro se abre. Foi editado pela americana Viking Press em 1945, mas o meu exemplar é da quarta edição, feita em janeiro de 1955, e foi comprado em um das duas lojas da Guanabara Jornais e Revistas, uma no aeroporto Santos Dumont e a outra no Galeão. Em qual das duas exatamente? Quando? Por quem? Nada é possível deduzir das poucas linhas sublinhadas e das duas palavras escritas num canto de página numa letra vagamente jovem e masculina.

A introdução de Mark van Doren e o texto em prosa Democratic Vistas, de Whitman, são os mais vivamente assinalados, um a caneta e o outro a lápis, o que nos induz a pensar que o livro, comprado talvez para matar o tempo num saguão de aeroporto ou as muitas horas de um vôo longo, foi lido também em outras ocasiões.

Mais de 50 anos depois, ainda estará vivo o primeiro comprador do livro? Infelizmente, que tenham se desfeito dele é indício da morte de seu dono: o sebo é em geral o destino que os herdeiros dão às velhas bibliotecas. Por outro lado, se em 1956, o dono original tivesse 30 anos, estaria agora com 85 anos, uma idade nada surpreendente de se alcançar hoje e dia. O entusiasmo presumido nas linhas sublinhadas faz imaginar alguém engajado no espírito daquele momento muito exato da história brasileira que corresponde ao governo de JK – nosso momento mais whitmaniano – e talvez o único. Cinqüenta nos depois, o que pensa ou pensava ele do Brasil a que chegamos?

Veja, leitor, o quanto pode haver num livro velho… O eterno espírito de Walt Whitman, o espectro de seu antigo dono; minha imaginação a misturá-los; meu afeto a acolhe-los os dois com igual simpatia. De fato, sou eu a novidade e é que com reverente carinho que me acerco deles, juntos já há tanto tempo, pois nossa jornada será longa: quem pode dizer onde estaremos eu e o livro daqui a 50 anos?