Fragmentos

Fiquei fascinado com a foto: acomodados num pedaço de espuma branca, estão uma pequena cabeça sem nariz em mármore branco e o resto de uma máscara mortuária em pedra negra onde se definem apenas os contornos do nariz, da boca e do lado direito do rosto. Três pequenas moedas de cobre oxidado completam o quadro. A cabeça seria de uma estátua de Cleópatra e a máscara mortuária de Marco Antonio e foram resgatadas do que pode ser a tumba perdida do casal de amantes suicidas. Mas ainda não há certeza sobre a descoberta.

Os mais curiosos podem pesquisar e descobrir detalhes tanto sobre a paixão de Cleópatra e Marco Antonio quanto sobre a descoberta da suposta tumba perdida. Vale a pena. Mas o que de fato me encanta são os despojos encontrados, pedaços de pedra sem quase nenhum valor não fosse a invisível pátina de história com que nosso olhar os recobre – e nos ilude. A mim fascina ver ali, lado a lado, esses “fragmentos amorosos” que repousavam há mais de dois mil anos embaixo da terra com a mesma singeleza como os que nós mesmos guardamos em caixas e gavetas que raramente abrimos, anônimos e sem valor, mas tão preciosos.

Há na máscara de Marco Antonio um sorriso de satisfação tão banal, tão comum que chega a ser comovente. Poderia ser de qualquer um, em qualquer tempo, esse sorriso de calma felicidade que se a gente procurar vai certamente encontrar em alguma foto – antiga ou recente, tanto faz: as fotos são nossas interinas máscaras mortuárias.

É aquele ar de felicidade que só mesmo a mágoa ou o desencanto que rondam o amor um dia poderiam chamar simplesmente de “cara de bobo”. Eu acho uma graça imensa, uma graça de dois mil e tantos anos, ver a cara de bobo de Marco Antonio por sua Cleópatra estampada em pedra com precisão fotográfica.

E veja, leitor, que ao final foi o que sobrou. De toda a grandeza e fúria e êxtase e dor, de toda uma história que nem podemos bem precisar se ou o quanto dela somos devedores, de tudo isto restaram esses pedaços de pedra onde um artista delicado registrou um sorriso. De toda essa saga vaidosa e talvez inútil restou um sorriso lavrado em pedra. A quem pertence o sorriso? A qualquer um, a humanidade inteira. Porque Marco Antonio, afinal, quem terá sido? Jamais saberemos…