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O Congresso contra-ataca, em nome da treva

Quando o governo ou o Congresso não sabem o que dizer, anunciam um projeto de reforma política (ou tributária). Sem ter como explicar as malfeitorias que empestearam o Legislativo, alguns hierarcas da Câmara e do Senado querem tirar do sarcófago a múmia de um projeto de reforma política. Com o apoio silencioso das cúpulas de todos os grandes partidos, são dois os defensores ostensivos da iniciativa: o deputado Ibsen Pinheiro, na Câmara, e o doutor Marco Maciel, no Senado.
Se um inimigo do Parlamento quisesse aprofundar a desmoralização do atual Congresso, não inventaria coisa melhor.

O primeiro pilar da reforma é o voto de lista.
Coisa simples, os contribuintes deixariam de votar em candidatos à Câmara. Teriam direito a escolher uma sigla, e só. Os eleitos sairiam de uma lista preparada, antes da eleição, sob forte influência das máquinas partidárias. A confiança que merecem os atuais partidos pode ser facilmente aferida. Nenhum deles condenou nominalmente qualquer dos seus deputados que avançou sobre as passagens da Viúva. (O presidente do DEM, bem como o atual presidente do PT e seu antecessor somaram seis viagens com as mulheres para o exterior.) Nenhum partido subscreveu qualquer iniciativa para que sejam abertas as contas das verbas indenizatórias.

O segundo pilar da reforma seria a instituição do financiamento público de campanha. Na teoria, esse sistema acaba com as doações privadas. Numa conta que andou por aí, a Viúva pagaria algo em torno de R$ 7 por eleitor, e esse dinheiro seria rateado entre os partidos (de novo a mesma turma).

Hoje o candidato e seus aliados gastam o dinheiro deles. Com a mudança, gastarão o dos outros. Mais: dada a versatilidade dos doutores, aparecerá o magano que se candidata a qualquer coisa para embolsar um caraminguá, mesmo sabendo que não se elege.

Hoje a patuleia vota no candidato de sua escolha e não paga nada por isso.
Com o golpe dos doutores, o contribuinte pagará para votar, perdendo o direito de exercer sua preferência nominal.

A melhor maneira para se começar esse debate seria a exposição pública das opiniões de José Serra, Aécio Neves e Dilma Rousseff a respeito do assunto.

Afinal, só um irresponsável (ou um sonso) seria candidato à Presidência sem ter a capacidade de opinar a respeito de uma reforma desse tamanho.”

Elio Gaspari, O Globo, 03.05.09