Meu pai

O que se perde e o que se ganha nesta vida, meu pai? O que se aprende, o que se leva? Você que já está morto, talvez saiba melhor do que qualquer um aqui. Morto ou mais vivo agora? Pois o que sabemos afinal do que seja a vida?

Um dia de felicidade genuína valerá toda a vida? E o que é isso: “felicidade genuína”? A aceitação ativa de todos os fatos, o sentimento de compreensão de que “Tudo é bom”? Enfim, de onde vem essa consciência que afronta a vida e a interroga com perguntas que talvez não façam sentido para ela? Talvez? Nada! Certamente não há sentido em perguntar à vida qual o sentido dela.

Você está cansado, Antonio. Vá dormir e aceite que amanhã será de novo outro dia, de novo novo, igual e único. Aceite que enquanto a consciência (esse outro nome que se dá à alma) não se reconciliar com a vida, não haverá paz. Não essa paz que agora, exausto, você deseja, de eterno domingo sem vozes nem horas, vazio e igual. Não essa paz, e sim a paz de haver um corpo disposto ao amor e à guerra.

A consciência brota da vida, lá do fundo dela. E por estar mais perto da origem, se insurge contra a vida, contra o fim presumido, a sucessão previsível, a repetição entediante. “A doença, qualquer doença, é a resposta da vida aos apelos da imaginação febril de uma alma em revolta”. Será?

Vá dormir, Antonio. A vida prosseguirá, incessante.