Diálogos entre a minha solidão e a sua ausência

Minha solidão não é a sua ausência. Minha solidão é divina, sua ausência é humana.
Uma é minha essência, sempre presente; outra, parte da minha existência, presença, real ou imaginada.
Frustração, lembrança, desejo: minha solidão é também o que faço de sua ausência.

(E, em dias como hoje, sua ausência me fala mais de mim do que minha solidão)

Sua ausência está ali, um fato quase físico.
Posso preenchê-la com outro corpo – tão pessoal, tão humanamente igual (a intimidade virá com o tempo, se vier).
Posso simplesmente contemplá-la.
Sim, sua ausência não me deixa só, nem minha solidão me exige estar sozinho.
Ao contrário, às vezes pede, senão impossível espelho, o sempre imprevisível traço de um retrato feito a mão.
Porque é ruim se sentir sem par no mundo hostil à solidão desnuda.
É bom ter um cúmplice, saber que na outra ponta da corda alguém nos aguarda,
Outro corpo que nos diga “Aqui acabo” ou “Aqui recomeço com outro nome”.

(E sobre essa outra solidão a solidão avança, se reconhece e nela se dissolve, como o rio no mar ou o ouvido no silêncio)

* * *

E então sentiu uma tristeza.
Uma tristeza nova, muito funda e fria,
Seca e lisa como um espelho onde sem querer se via:
“Fui o melhor que pude e não fui suficiente”.
Nenhuma culpa. Alguma dor.

(só um silêncio bem lá dentro, úmido de lágrimas que não virão, feitas de algum riso antigo que não houve, que podia ter sido e não foi)