Noite-eu

Às vezes meu coração se aperta de um modo que me dá medo de dormir. Será medo? Não sei… É um sentimento que se traduz pelo absurdo raciocínio de que se eu não dormir jamais amanhecerá de novo, que enquanto eu estiver acordado será noite, este silencioso e escuro lugar que não é nem ontem nem hoje, um nada confortável e fora do mundo, onde estou sozinho e seguro. É como se, não dormindo, eu pudesse estar vivo fora do tempo. Acordado, mas numa noite eterna, silenciosa, calma, fresca, sem ninguém, apenas livros – e este misto de biblioteca universal e máquina de escrever que é o micro conectado à internet, esse outro mundo, mais perfeito, imaterial, quase inexistente, imenso e ínfimo, discreto e solidário, acolhedor, mas nada invasivo…

Será mesmo medo essa vontade de noite? Ou será só a forma da minha melancolia? E afinal o que é melancolia? Não é tristeza. Eu estou longe, muito longe de ser uma pessoa triste ou cronicamente melancólica. Agora – provisoriamente como sempre – eu definiria a melancolia (ou a minha melancolia; ou melhor ainda, esta melancolia, pois há muitas, sem dúvida, como tudo mais…), mas eu diria que esta melancolia é um lúcido cansaço, uma compaixão antecipada que, sem desprezo, escolhe a distância, um amar de longe, na imaginação ou na memória, sem muito apego, vagamente, como nos sonhos, onde quase nada chega a se fixar. É talvez um estado pré-meditativo, uma nostalgia sem objeto definido…

Lembro os versos de Camões (e me amparo neles):

Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperanca falta, lá me esconde
amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias ha que n’alma me tem posto
um não sei que, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porque.


Viver é bom e em tudo que se vive há uma sabedoria a se guardar, se estamos atentos e desejosos de aprender. Creio mesmo em outros mundos, aquém e além da vida, mas gosto deste mundo, da minuciosa e ambígua singularidade que o habita. Tudo aqui é imenso e vário, brutal na sua juventude, delicado na sua finitude, orgulhoso e precário.

Mas…

(…e então, anoiteço, por dentro, mudo. Nem sim, nem não: duro)

10 Comentários

  1. A noite é a parte mais bonita do tempo. E quando o coração fica apertado…é a saudade farejando seu corpo em busca do cheiro de outro alguem.
    Anoitecer é se juntar as estrelas, é se banhar no silencio, se vestir de beleza, expor a magestade que todos temos no intimo. A noite é impar, misteriosa, andarilha.Atinge o menor cantinho do mundo.E se nos toca o coração, só nos agradece a companhia.
    “È preciso ser noite para se ouvir o silencio…pois quando amanhece a mente tagarela feito criança. ”
    PARABENS. Voce é mesmo incrivel. Sou fã das suas cronicas.

  2. Não me sinto mais uma alienígena por querer anoitecer antes da hora. rs…
    Obrigada por isso!
    Como sempre, você e suas palavras perfeitas pra explicar aquilo que nasce dentro de mim, dentro de você e de tantas pessoas… Magnífico esse dom que você tem.
    Teve uma época que eu tinha muito medo de quando vinha a noite… não conseguia dormir, ficava em claro, vendo as horas leeeentamente passarem. Era uma tensão… e eu era tão pequena…Desde aquela época eu já estava me aproximando desse universo de estar sozinha e sentir-se assim, reconhecer-se assim.

    Você é incrível.
    Beijos

  3. Ai, ai, ai…
    Quantas vezes me sinto exatamente assim. Um tanto assombrada com a finitude das coisas, a vida e sobretudo de mim.
    Quando bate este sentimento à noite resta-nos anoitecer.
    Fui de curiosa nos teus links e percebi que favoritamos alguns em comum. Só achei uma pena que não sou nem útil nem bacana.
    Abraço.

  4. Nossa, que lindo! É a primeira vez que te visito mas já te digo que virarei frequentadora! A propósito, postei lá no meu blog um texto seu hoje, ok? Espero que não se incomode… Abs, Ana

  5. Cuando vengo y te leo en textos como este, recuerdo que leerte es como escuchar la mejor de las melodías.

    Saudades de tu voz acompañando las crónicas.

    El abrazo de siempre, amigo queridísimo.

  6. oi caetano! valeu pelo comentario! o lançamento no rio é na sexta, 7.8, no amarelinho, a partir das 18h. tenta aparecer lá! agora q vi q o metodo funciona, pretendo relancar meus outros livros assim tb… 🙂

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