Sobre a doutrina do karma

A doutrina do karma é das coisas mais estúpidas e cruéis imaginadas pela mente humana.

Não quero desmentir o testemunho dos espíritos a Kardec, figura que admiro e julgo mais útil e verdadeiro do que muitos que se estudam na academia, mas creio que, tanto quanto a velhice, estar em outro mundo não é garantia de mais sabedoria.

Se as almas são finitas ou infinitas, já se perguntava Baudelaire em algum momento de Meu Coração Desnudado. Se são finitas, reencarnam. Se são infinitas, para cada corpo – vale dizer, para cada vida humana – corresponderá uma alma.

As implicações são óbivias: se o destino de uma alma se resolve nesta única vida, não há chance para o erro. Imediatamente, a hipótese da reencarnação se insinua como mais “humana” ou mesmo mais “lógica”.

No entanto, a despeito da radical diferença das implicações que as separam, sob o ponto de vista da Eternidade, elas se equivalem. Porque a Eternidade, o que não tem começo nem fim, só pode ser concebida como simultaneidade. Nesse caso, todas as encarnações seriam simultâneas, como as partes de uma mesma coisa. Logo, toda a idéia de um nexo causal que as uniria em sucessão baseada no mérito seria mais do que falsa, sem sentido. Qualquer idéia baseada no tempo sucessivo, é mera ilusão sob o ponto de vista do Eterno. Ou dito de outro modo: Deus não está subordinado ao Tempo, tomado como sucessão.

Se é assim, neste exato momento em que escrevo estas linhas que se pretendem tão sublimes, eu estou assassinando crianças apenas porque pertencem a outra tribo, sendo violada por um bando de russos embriagados, aprendendo a caçar búfalos nas montanhas com meu pai, me atirando de um penhasco apenas pelo risco de acreditar que chegarei vivo lá embaixo, buscando inutilmente a pedra filosofal, apanhando na cara em algum sórdido antro de criminosos – tudo isso para o desenvolvimento e glória de uma parte de algo que participa da Eternidade, sendo, no entanto, misteriosamente distinto dela.

E se é assim, sendo eu este ou sendo eu vários, tanto faz, não há diferença. Por quê? Porque não há, como eu disse antes, ligação causal e meritória entre as encarnações, visto que são simultâneas. É possível suspeitar que exista entre elas alguma relação de incompreensível complementaridade, mas o que prevalece é a autonomia de cada encarnação em relação às outras. Eu sou eu ainda que a alma que me habita me ultrapasse e seja outros.

Então, seja como for, este que sou é responsável por seus atos e deve aceitar como acidentais todos os acontecimentos de sua vida. Nem mérito, nem castigo previamente determinados orientam a sucessão dos fatos – ainda que tudo misteriosamente esteja inscrito em Deus desde sempre. Quem quer que este que é em mim esteja sendo agora em outro tempo ou dimensão, não me importa nada. Esta fração de algo que chamo eu deve ser aqui o melhor que puder e ponto final, sem se queixar, sem se explicar.

Mas agrava menos a doutrina do karma ela ser um desperdício inútil, uma futilidade intelectual, do que servir de fundamento a mais perversa organização social da face da Terra que é o sistema de castas hindu.

Quando os ingleses tomaram mais contato com os indianos, ficaram desnorteados pela ausência de um rigor histórico, temporal das narrativas. Talvez não tenham percebido de imediato que a História para os hindus se passa em outra dimensão, num eterno passado, de tal modo que tudo neste mundo nada mais é que mera projeção , consequência de um tempo do qual não há sequer memória, mas é perversamente dedutível da minha condição presente; nascer rico é um prêmio, nascer pobre um castigo – inexoráveis e inquestionáveis. Revoltar-se contra a própria condição era sobretudo uma blasfêmia.

Falta à doutrina a sutileza que se espera de Deus. Sobra-lhe a perversidade que se atribuiria a um demônio.

Há algo que precisa ser alcançado nesta vida: isto é o que há de mais certo, disseram Buda e Jesus. Acredito. Sinto isso. Há algo a ser descoberto. Intuo que não é nada que desminta este mundo, este que vivemos, aqui e agora. Mas é algo que o inclui e ultrapassa.

Há algo a descobrir sobre a vida q o próprio viver se encarrega de encobrir.

(Esse algo a descobrir exige, supõe a solidão. O primeiro grau de solidão é a solidão dos livros. É a solidão dos livros  nos prepara para as solidões seguintes)