… não é que o mundo seja mau: o mundo é livre

Entendo mundo por natureza. Acho que podemos ir até mais longe e assimilar o conceito de natureza ao conceito mais genérico de vida. O mundo é a vida ou o mundo e a vida são o mesmo.

Se a Vida foi criada por Deus à sua Imagem, eu diria que necessariamente um dos atributos da Vida é a liberdade. Logo, o mundo é livre. Essencialmente livre.

Não deve surpreender, no entanto, que tudo busque uma rotina, um padrão, um modo de ser,  uma economia que produza o maior rendimento com o mínimo de gasto.

A liberdade é exatamente o poder de estabelecer essa relação dinâmica com todo o resto (aqui, sim, “todo o resto” significa “o mundo” no sentido de “tudo aquilo que não sou eu”, isto é, uma das figuras da santíssima trindade da filosofia – de quem kant – ou can’t – dizia nada podermos falar: Deus, alma e mundo – que é exatamente do que não parámos de falar o tempo todo). A impermanência é uma implicação da liberdade.

Sem liberdade a economia seria mera programação, incapaz de responder num improviso à permanente impermanência deste mundo livre. (Fica aqui a pista de porque as ditas “economias planejadas” não funcionam).
Dito de outro modo: a absoluta contingência de todos os fatos (apontada por Descartes e Wittgenstein, por exemplo).

Enfim, este mundo é livre e tudo nele se orienta com um sentido único: durar o mais tempo possível. Ou se vc preferir em uma palavra: sobreviver. Durar – eu prefiro.

Tudo quer durar, tudo quer seguir sendo o que é. É interessante notar, em contraponto, esse “conservadorismo” no cerne da Vida: “quero seguir sendo o que sou pelo maior tempo possível.”

Tirando todo o peso da palavra, o egoísmo é um dos pilares (sic) da Vida.

Então temos duas forças aparentemente opostas, mas fundamentalmente complementares, tocando a Vida: a criação e a conservação. Estou sempre procurando conservar as melhores situações que crio. Na verdade, essas duas forças dialogam todo tempo com o único sentido de seguir vivendo.

Nesse sentido, só outro ímpeto é mais forte ou tão forte quanto o ímpeto de autoconservação da vida em mim: o desejo de reproduzir a vida, como outra forma de conservá-la. Em uma palavra: sexo.

Por isso, tudo, tudo, tudo no mundo, na Vida, em mim pode ser reduzido a Sexo – aqui no sentido de “instrumento de reprodução”.

(De certo modo, o micróbio que se reproduz pela divisão de si mesmo, sempre igual a si mesmo, a ponto de se poder dizer que só existe um micróbio que se estende sempre igual e outro pela eternidade é mais “parecido” com Deus do que eu…).

Egoísmo e Desejo, no cerne da Vida. Sem autoconservação e reprodução não haveria Vida, dois “artifícios” para que a Vida “imite” a Eternidade de Deus sendo distinta dele (Ele um, Ela diversa).

(logo chegaremos a relação mencionada no título entre Liberdade Mal. Escrevo isso mais para mim do que para vc, leitor)