A imaginação e a realidade

Imaginação, memória e sensibilidade em descartes são modos do pensamento. Ou seja, tudo é pensamento. Mesmo sentir.

Não há diferença formal entre sentir – ver você, escutar, tocar você – ou lembrar ou imaginar você. São apenas modos que o pensamento assume na tarefa de dar nossa atenção a algo.

Mas nós naturalmente, sem muito esforço, distinguimos esses modos. Mesmo quando nossa vontade distorce a percepção da realidade ou quando sonhamos, em algum momento a ilusão se desfaz. Então a consciência de que estamos de fato fazendo o que estamos pensando volta a vigorar naturalmente.

Inevitavelmente, esses modos (imaginação, memória e sensibilidade) nos remetem às três dimensões do tempo sucessivo: o futuro, o passado e o presente. Essa associação é complexa, mas ressalta a relação entre pensamento e tempo, duração, substância, identidade.

Então em descartes o pensamento é uma matéria plástica que assume formas segundo o modo em que ele se dá, mas é verificável pela própria experiência de ser que esses modos ou dimensões se misturam todo o tempo. Ou melhor até: elas se dão simultaneamente quase em dimensões próprias, as vezes se tocando, as vezes se afastando, e em alguns momentos especialíssimos, se alinhando.

Nem falo desse pensamento corporal, ainda até mais fundo que o instinto que mantém o corpo regulado e funcionando. Se entrarmos nessa dimensão o maravilhamento quase nos cega: como pode isso funcionar tão maravilhosamente bem? E não só eu, este ser carnal que agora escreve, mas tudo a minha volta, o mundo , a vida.

Falo do pensamento agora como essa atividade mais ou menos consciente e auto-evidente (olho, vejo, escuto, cheiro,toco, lembro, imagino – agora, tudo ao mesmo tempo agora), reconhecível e  identificada com a impressão de que existe mesmo o pensamento, uma atividade puramente mental, que se distingue do corpo.

Experimentamos isso quando andamos na rua imersos em nossos muitos pensamentos: o amor, as contas, o livro que se está lendo, a lembrança súbita de alguém, a política, o futebol, sexta-feira – e o corpo caminha decidido, calculando as muitas alternativas que tem para não cair ou esbarrar nesses outros seres iguais a mim. São como “camadas de pensamento”, informação circulante na matéria e mesmo dando forma a ela (informando a forma, num trocadilho infame).

Experimentamos essa sobreposição de “modos de pensamento” cotidianamente sem muito nos dar conta dela.

Então a idéia de que há como que “camadas de pensamento” recobrindo (ou quem sabe unindo?!) a matéria propriamente física, o corpo e tudo mais ao redor, essa idéia não nos é estranha – e eu diria mesmo que é auto-evidente.

Admitir então que é possível reduzir  “tudo” a extensão e pensamento como faz descartes é algo perfeitamente cômodo – eu diria até “natural” – e permite um ponto de partida confortável.

Uma consequência imediata: a rejeição por falsa da pretendida oposição entre sensibilidade e pensamento, ou numa versão mais romântica: razão e emoção.

(não resisto ao trocadilho quase vazio: razão sem emoção é perversa; emoção sem razão é histérica)

Extensão e pensamento não podem ser pensados verdadeiramente como separados – ainda que seja perfeitamente pragmático fazê-lo e os resultados estão aí, à frente.

A matematização do mundo, abominada ou exaltada, resulta da crença que há entre matéria e pensamento uma tal intimidade que é dado ao pensamento compreender a totalidade em que se insere, ou melhor dizendo, que a relação entre pensamento e matéria é uma relação de verdade, que o pensamento pode traduzir verdadeiramente o mundo – e por aí vai…