Adivinhe quem disse:

Pergunta

“A justiça social não é o igualitarismo, é a igualdade de direitos e de oportunidades”

Resposta

Lázaro Barredo, diretor do diário “Granma”, deputado e membro do Comitê Central do Partido Comunista Cubano, hoje, 19/10, em O Globo.

A matéria é deslumbrantemente esclarecedora.

Cuba faz contas para acabar com sua caderneta de racionamento

Baixos salários são um obstáculo para o fim de alimentos subsidiados.
Mais de 70% dos cubanos viveram sob sistema de racionamento desde que nasceram

A famosa caderneta de racionamento, em vigor desde 1962, garante por mês, a cada um dos 11 milhões de habitantes da ilha: 3,5 quilos de arroz; 2,5 quilos de açúcar; meio quilo de feijão; 230 gramas de azeite; dez ovos; 460 gramas de frango; 460 gramas de macarrão; 230 gramas de farinha de soja (ou equivalente), além de 115 gramas de café e um pão diariamente. Para crianças menores de 7 anos, inclui ainda um litro de leite por dia. Não é muito, mas durante quase 50 anos essa minicesta básica subvencionada — todos esses produtos custam menos de 1 C (R$ 2,55) — foi símbolo do igualitarismo da revolução.

No entanto, os tempos mudaram.

Em meio à crise atual, a caderneta de racionamento converteuse num fardo pesado demais para o governo de Raúl Castro, que tenta elaborar um modelo de economia socialista sustentável, baseado na lógica dos números e não em sonhos impossíveis. Cuba importa mais de 80% dos alimentos que consome e, na atual circunstância, a subvenção dos produtos da caderneta consome do Estado mais de U$ 800 milhões (cerca de R$ 1,36 bilhões). A conta não fecha.

Desde que assumiu formalmente o poder, em 24 de fevereiro de 2008, Raúl Castro deixou claro que a caderneta de racionamento, assim como outras gratuidades e os subsídios milionários, é algo “irracional e insustentável”. “Nenhum país pode gastar indefinidamente mais do que arrecada”, disse em várias oportunidades.

Bandejões foram fechados em quatro ministérios

O mesmo discurso é repetido há meses, desde que, nos meios de imprensa oficiais, é rara a semana em que não se publicam cartas de leitores criticando a caderneta. Até o diretor do diário “Granma”, Lázaro Barredo, deputado e membro do Comitê Central do Partido Comunista, publicou semana passada um editorial contra os “vícios do paternalismo”, em que defende o fim do racionamento subsidiado. “A caderneta foi uma necessidade num determinado momento, mas agora é um obstáculo diante do conjunto de decisões que a nação terá que assumir”, escreveu Barredo, para quem “a justiça social não é o igualitarismo, é a igualdade de direitos e de oportunidades”.

No início do mês, as autoridades começaram a experimentar a primeira medida para desmontar o sistema estatal de subsídios.

Como teste, em quatro ministérios — o de Trabalho e Previdência Social; Finanças e Preços; Economia e Planejamento; e Comércio Interior — foram fechados os bandejões para trabalhadores.

Em troca, cada funcionário passou a receber 15 pesos por dia (70 centavos de euro) para que almocem por sua conta. Em Cuba há 25 mil bandejões, onde a cada dia comem 3,5 milhões de empregados do Estado, a um custo de US$ 350 milhões (R$ 658 milhões). A proposta é estender a medida a todos os centros de trabalho.

Dentro desta lógica de eliminação de subsídios, a caderneta de racionamento está com os dias contados, na opinião da maioria dos especialistas. “A caderneta vai desaparecer, quanto a isso não há dúvida.

Mas a precariedade atual é tanta que o governo não pode fazer isso de repente, pois atingiria fortemente metade da ilha”, assegura um economista.

As autoridades sabem disso.

O salário médio em Cuba é de 415 pesos (cerca de R$ 34).