O antimestre

Quem sou, o que sou?

De que matéria sou feito, afinal? E o que é a vida em mim, trabalhando por sua própria conta, quase a despeito de mim? Lembro – ou talvez apenas imagine – de mim muito menino ouvindo os ruídos do meu próprio corpo, querendo me ver por dentro a partir do que ouvia (me digo nada musical e em parte é verdade, na execução de instrumentos ou na distinção das notas, mas sempre gostei de ouvir, a concentração de ouvir o ruído mais longinquo, como se ele fosse um aroma. a anarquica polifionia do cotidiano sempre me encantou mais do que a música. pq a musica que vinha das radios e se repetia na boca das pessoas, as emocionava, exigia delas respostas, entendimento. já os sons que vinham da rua, do prédio, de dentro de mim não eram nada, mera obra do acaso, da vida em se fazer, não exigiam entendimento, mas por outro lado, a despeito do encantamento de sua variedade sempre surpreendente, pq os sons eram quase sempre simultâneos e independentes, de um não se deduzia o próximo, mas iam-se desenhando quadros: podia-se imaginar de onde vinham, a que tarefas correspondiam, e por aí lá ia eu, de olhos fechados, ou muito abertos para a luz do sol, seus raios espalhados pela casa e as sombras que projetava, às vezes absurdamente díspares dos objetos a que correspondiam, seus loucos desenhos em preto e branco cravados nas paredes, no teto, no chão – mas sutilmente móveis, pois quando me dava conta já não estava mais ali – sim, quantas vezes já não tentei acompanhar o lento caminhar de uma sombra, se arrastando que nem cobra pelo chão…)

E há a consciencia, este que vos escreve, que também sou eu, mas que pretende pensar o todo, ele incluso. O louco!

E eis o que me encanta no Tarot: a vigésima segunda carta, o 22, o doido, é também o zero. O que é a perfeita tradução do ditado zen: “Antes do zen, as montanhas são montanhas, os rios são rios. Durante o zen, as montanhas não são mais as montanhas, os rios não são mais os  rios. Depois do zen, as montanhas são as  montanhas e os rios são os rios.”

Eu gosto dessa imagem pq ela envolve a idéia de espiral, de ascensão por graus, que não anula os graus inferiores, como o topo da escada supõe os degraus. Me agrada também a simplicidade, a árdua simplicidade das praias desertas: não se promete um paraíso na terra, um mundo de visões e delirios, mas uma espécie de hiperrealismo, um ver a vida com outros olhos, de vê-la não digo em todo o seu esplendor (seria pedir muito) mas com um novo padrão de minucia – e aqui a metáfora do óculos, do microscópio ou do telescopio, se encaixa como uma luva – ou um par de havaianas nesse calor…

Mas eu dizia, “há a consciência” e ela – essencialmente digressiva? – digressionou… Ela, parte, quer pensar o todo, com ela incluso.  E logo descobre que há um pensar inconsciente – ou dito de modo exato: que lhe é estranho e que por isso o chama de inconsciente. E aí, como um espelho voltado para o outro opera uma abissal e vertiginosa multiplicação, uma vertiginosa e abissal multiplicação se opera e, por isso se diz, beira a loucura: pq nos aproximamos do limite. E o limite é muito simples de dizer: “impossivel dizer o simultâneo numa linguagem que é por natureza sucessiva”, como o próprio mundo a que se refere, aliás. Sim, pq de tudo que está diante de nós, tudo parece seguir uma linha do tempo muito bem definida, uma seta do tempo sempre apontando para frente,  “Tout droite, monsieur!”, começo, meio e fim. nascimento, desenvolvimento e morte. Tudo é finito, enfim.

Nesse caso, se admitimos que finito e sucessão são o mesmo (visto de angulos diferentes), será fácil admitir a mesma relação entre infinito e simultaneidade – o “Tudo ao mesmo tempo agora” como define brilhantemente Arnaldo Antunes.

Então, já vislumbramos o abismo: temos uma vida que parece exclusivamente subordinada a este mundo, finito, sucessivo, singular e deslumbrante (mas também cruel, imprevisível, mas nem por isso menos tedioso), mas também uma consciência que facilmente navega numa outra onda, um outro mundo (talvez dissesse Platão)  – subjacente, imanente, “juste a coté”, coladinho mas invisível (não sei se Platão concordaria com tanta imanência) – onde pensamos o pensamento se pensando, onde tudo é simultâneo, onde tudo é duplamente um.

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De volta à metafora da carta 0 ou 22 do Tarot: é como se da vida no homem a consciência brotasse como flor inusitada

(ultimamente tenho me deliciado com a idéia que essa consciencia brotada da vida é uma supresa até para Deus. E que Deus rejubila-Se consigo mesmo por ser infinitamente livre a ponto de poder Ele mesmo surpreender-Se, que Sua liberdade infinita não o torne  previsível e contamina também toda a Sua Obra)

e não é sem surpresa que constato que isto é o esboço de uma teologia,

que posos muito bem colocar um anúncio: VENDE-SE RELIGIÃO único dono, pronta pra morar, etc;

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Mas para nós essa duplicidade não deixa de ser confusa de viver: dor, prazer, sonho – tudo se mistura.