“The reality as it is, as it is…”

De volta ao caminho…

Esse é o mantra: “The reality as it is”.

Entendo “realidade” como o presente, aquilo que é a matéria dos sentidos, do corpo. No meu caso, que trabalho com idéias sumamente abstratas, “estar na realidade” significa não me deixar – exatamente sob o pretexto de trabalhar com “objetos abstratos”, não me deixar levar por especulações, devaneios, delírios, divagações sem consistência de futuro.  Ou culpas, arrependimentos, remorsos, mágoas, frustrações, numa contínua reconstrução de eventos cujo maior mérito é ser passado.

É nesse sentido, ou por essa via, que se pode entender a “necessidade de escrever” de que fala quase todo  escritor, anônimo ou famoso. Para alguns, a única maneira de parar a “máquina de fabular” é escrevendo.

E aí, também me ocorre às vezes me pegar dizendo: “Ah! isso eu não quero! Não quero essa escrita catártica, por melhor que ela (a minha) pudesse ser”.

Pois é, parece tão nobre que logo desconfio. Não que me desagrade o pretexto – ainda que me cheire a anos 70, Bretcht, e por aí vai… Mas o que importa – a mim, pessoal e exclusivamente – é a negação pura e simples, a interdição que a frase impõe.

Escreva e pronto. Como o padeiro faz o pão. É o seu ofício.

Venho pensando muito em como usar o Café Impresso como ferramenta do meu ofício – que, é preciso admitir, nunca dispôs de tantos meios de se exercer. Que forma deveria ter o Café para se tornar um instrumento de trabalho – no meu caso de interação com leitores?

4 Comentários

  1. Rose, a meditação favorece essa prática. Ou melhor: essa prática – viver o presente, libertar-se do passado e do futuro como uma extensão do passado – é a essencia da meditação.
    É uma prática, bastante simples até, mas não exatamente fácil.
    Os cursos que fiz sob a orientação de S. N. Goenka são árduos e a sugestão da meditação diária difícil de cumprir.
    Importante é frisar que esse modo de viver envolve necessariamente uma prática física e não meramente teórica: não adianta apenas ler e escrever, é preciso praticar, buscar.
    Há um cara – muito desdenhado tantos pelos materialistas ateus como pelos religiosos ortodoxos – chamado Hermógenes. Escreveu alguns livros e tem professores formados ministrando aulas de ioga por todo o Brasil. Vale a pena conhecer e praticar.

  2. “… é quando vemos a palavra em vez da coisa. Vemos “arvore” em vez de esta arvore”. A C

    – Pensei o seguinte, depois que li seu texto.
    Rasgar o recipiente e resgatar o olho da infância. Pra que serve isso? Não sei. Caeiro ajuda nessa empreita.
    Sim, Antonio, a mesa (árvore) pode perder o significado e virar um objeto aleatório, não utilitário. O olho para a arte desnuda a mesa – arte e vida ( vida = a mais primitiva, a dos instintos)
    Encontrar o presente é tirar a funçao do objeto, função dada pelo tempo passado.
    ….
    Eu vivo fazendo isso, parando de pensar um tempo e vendo mais. Essa percepção, ou compreensão/ me faz evoluir, enquanto sujeito de evolução X . Do quê? De chegar mais próxima da vida, aquela à que o animal , o bebê, é mais aconchegado e luminoso e bem-aventurado.

    ………………..Esta sua árvore nem será mais arvore, quiçá cabeça rodando verde, meu significado aderido ao objeto depois dum momento visionário.

    Mas a dificuldade é ver um ser humano sob essa visada, assim, despreendida do que foi contado, fabulado. Sei que você é você, signo de palavra e silêncio. Ou, o outro, a outra. Aproximo-me do semelhante, já sabendo do antigo fogo, ou dos seus dentes de faca, palavras crueis; pronuncia fricativa.Posso denunciá-lo, desconfiar, ou rezar o mesmo feijão: ver o sujeito na construção que fiz dele , durnte o tempo; seguindo a memória afetiva que estabelece uma construção possível do outro com quem me comunico. Quem vem lá? é aquele que um dia roubou meu chapeu ou …qualquer outra coisa. Raspar o signo e chegar a um homem , este homem ( hoje agora) , ve-lo como um algo ou outro outro liberta o outro, mas é enganador. Perde-se a construção duma relação, seja qual.
    Claro que sei que conseguir retirar do meu olho essas temperaturas, esses fotogramas construídos durante a vida, é libertador. Porque libera a mim e ao outro da lei da causa que me permitiu decifrar esse outro ( desculpe o jeito confuso que escrevo). Ver uma pessoa com outros olhos é liberta-la do que a amarrava a uma imagem boa, má . É ver outros lado e até descobri-los. E assim se renovam os laços afetivos assim feito o sol nasce muito outro, todo dia.
    Mas é difícil. Humilde prefiro olhar meu cachorro que tanto me irritou fazendo xixi pela casa o que vejo agora, plumas , que sob o sol – e ventilador- descansa. Esquecer o que diabinho.
    Seu texto me fez pensar um tanto. Obrigada. Feliz Natal e até outro dia.

  3. Se estou entendendo, vc toma esse estar no presente como uma ausência de memória, de referencia ao passado. Acho que nem os animais vivem assim. A experiência, o conhecimento é a base da vida. Mas pode ser para a consciencia um refinador das sensações presentes – e não a referencia definidora. Porque a experiencia presente deve ser vivida como singularidade ou em toda a sua singularidade, em toda a novidade que caracteriza o momento presente. A experiencia passada refina, aguça a experiencia presente, mas não determiná-la. isso acontece quando vemos a palavra em vez da coisa. Vemos “arvore” em vez de esta arvore.

    Quanto ao futuro, veja que interessante: se tudo que é já está desde sempre inscrito no infinito, nada do que eu venha a fazer pode influir decisivamente no andamento das coisas, apenas retardá-las ou apressá-las. A consciência tem mesmo um horizonte a frente. Estar focado no presente é um deixar-se ir com clareza para frente, sem muita resistencia, mas guiado por principios simples, noções de limites e tal – algum rumo a gente dá, claro. É como navegar, saber navegar com os ventos, que não são visiveis, mas sensíveis.

    A interação q eu falo é no sentido de “prestar serviços”, ter objetos a oferecer, etc.
    Mas admito que, sem maldade, às vezes deixo de comentar um comentário. De um certo modo, veja q engraçado, é como se eu só vivesse o hoje – que é a essencia da cronica. Tenho mesmo uma dificuldade em voltar, em reelaborar, etc.
    Isso precisa ser corrigido. Porque esse também não é o alvo.

    Mas obrigado por vir aqui sempre, comentar. Para mim – mesmo que eu não responda! rs – é um alento.

  4. Ok. Mas você estabelece uma relação com o ausente… o passado lembrado, o futuro esperado, né? Só os animais são capazes de viver somente do presente. Por quê? Porque não precebem a experiência do tempo.

    ” interação com leitores” ? É só responder… Não sei se você reparou, mas alguns que comentaram por aqui já ficaram no vácuo. Quem comenta precisa de um feedback. Isso é interação.

    É como as margaridinhas, que eu adorei…

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