O limite da tolerância

Do blog Fiel Inimigo:

Sobre a tolerância
Uma pessoa tolerante tem o direito de ser intolerante apenas quando acreditar, sincera e fundamentadamente, que essa intolerância é fundamental para a sua segurança, ou a dos que representa ou tutela.
É uma questão de justiça e dever. Não se é justo quando se assiste passivamente à destruição dos fundamentos da própria existência.
Veja-se o caso do islamismo.

O islamismo é entendido por muitos como uma inequívoca ameaça existencial para o nosso modo de vida, uma vez que visa expressa, declarada e explicitamente, destruir uma civilização vista como “decadente” e satânica. Os actos observáveis corroboram esta intenção.
Face a isto, a renúncia de alguém a proteger-se, apenas beneficia os intolerantes.

Neste caso os tolerantes têm o direito (e o dever) de dominar os intolerantes, porque estes, por palavras e actos, representam um perigo que pode ser honestamente visto como claro e inequívoco.

Pelo contrário, se do discurso de pessoas ou grupos intolerantes, não resultar ameaça objectiva, então os tolerantes não podem suprimir esse discurso.

Assim sendo, devem-se tolerar os gays, os anti-gays, os islamófobos, os islamófilos, os anti-semitas e anti-”sionistas”, os fascistas e os comunistas,os sportinguistas, os gajos do BE, etc, etc, até ao ponto em que o exercício da sua liberdade de pregar a intolerância, não provoque uma ameaça credível para para os alvos da sua animosidade.

Se isso acontecer, ou se houver indícios claros de que está prestes a acontecer, a sua liberdade pode e deve ser restringida e os tolerantes têm o dever e o direito de praticar a intolerância.

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O argumento é claro e estabelece o lógico limite (afinal, vivemos num mundo onde tudo é finito) da tolerância. Ir além desse limite é um risco que só pode ser assumido sob o argumento da fé.

Ghandi, para evitar a partilha da Índia quando de sua emancipação do Império Britânico, chegou a propor aos representantes da maioria hindu que cedessem TODO O PODER à minoria islâmica. A proposta foi rejeitada sem discussão, óbvio. A partilha resultou em algo em torno de 2 milhões de mortos.

Aquele que, em defesa da vida, adota a ética da não-violência tem por obrigação de defender a própria vida – violentamente, se necessário.

Há, no entanto, o santo.  Ele é a necessária exceção à regra, aquele que joga a questão para outro degrau: o limite oposto à lógica

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A “Questão Islâmica” é uma questão européia por excelência. Li outro dia que os EUA não têm um problema tão extenso com seus muçulmanos porque eles são em maioria sunitas. Os xiitas, que predominam na Europa, são herdeiros de uma leitura escatológica do Corão, pelo que entendi. Talvez algo como católicos e evangélicos entre os cristãos.

A interpretação histórica de toda escatologia (estou tomando – acho que certamente – todo “discurso apocalíptico” como uma escatologia, na definição do Aurélio: 1. Doutrina sobre a consumação do tempo e da história. 2. Tratado sobre os fins últimos do homem. ) é o pior de todos os erros.

O mais saudável é interpretar toda escatologia como uma narrativa simbólica, alegórica, esotérica e mística, da viagem interior da alma em direção à Deus.

Interpretar uma escatologia como uma profecia – ou seja, dar a ela uma cronologia histórica, real – e tentar interpretar os fatos (ou pior, realizá-los) em correlação com às alegorias é montar uma bomba-relógio sem ponteiros.

Foi o que aconteceu quando se misturou escatologia e marxismo, por exemplo. Ontem estava pensando se o marxismo – com o seu adventismo escatológico – não seria a metafísica do capitalismo.

Quando a ciência materialista invadiu os “espaços invisíveis” criou o telefone, a eletricidade, o rádio, a tv, o celular – sem prejuízo para o espírito.

Mas o materialismo marxista é por demais “abstrato”: a multiplicação de entidades invisíveis (e mesmo inverificáveis) como A História, As Classes, A Ideologia, As Forças Dialéticas tomadas como REAIS e EXISTENTES é a coisa menos materialista, cética e atéia que eu poderia imaginar. Não é a toa que sua origem é o Espiritismo hegeliano.