ciência e religião

Ao contrário do que me acostumou minha herança iluminista – e friso iluminista, para que não se cometa a tolice de entender “branca” ou “européia” – num ambiente onde vige nossa ancestralidade africana – e africana aqui quer dizer da africa que herdamos nós, os brasileiros, uma africa animista,  dos orixás, dos espíritos – tudo é vivo.

É mais do que uma história o que tem cada berimbau, cada instrumento. Do mesmo modo que somos maiores do que a história que contamos de nós e a nós mesmos.

* * *

Falando dessa posso dizer “nossa” herança iluminista, o que me impressiona na farsa do aquecimento global é o modo como a ciência ocupou o espaço da religião. Baniu-se a metafísica (digamos assim – e pensemos em Kant) a pretexto da ciência.

E, oh!, para surpresa de todos, o que aconteceu?

A ciência – antes o seguro lugar da hipótese, da dúvida, da criação de modelos mais e mais complexos do mundo, mas sempre hipóteticos – tornou-se verdade. A Verdade.

Por exemplo: o darwinismo – a idéia genérica de que o homem descende do macaco, como se diz. É uma hipótese entre outras, talvez apenas a menos elegante. Tornou-se uma religião. E pior, intolerante, porque pretende banir todas as outras.

Por mais certa que seja uma hipótese cientifíca, ela –  mundanamente, bem mundanamente – ,  deve sempre se pretender provisória.

Veja o próprio Einstein, que ao vislumbrar a Física quântica a renegou: “Deus não joga dados” – teria dito.

A frase sempre me fascinou. “Por que não?” eu penso. Por que afinal Deus não pode se surpreender consigo mesmo?

* * *

E o que é interessante: não há incompatibilidade entre ciência e religião. Nenhuma.  Se fomos criados por Deus, se acreditamos nisso, mesmo a hipótese darwinista apenas descreveria como a coisa se deu. Não faz diferença.

Haveria uma incompatibilidade entre a ideia de Deus e a idéia de acaso? Aí a coisa fica mais complexa de fato.  Para evoluir do macaco ao homem, “isso” que evolui – a vida humana, digamos – se não podemos supor um propósito ou qualquer pré-determinação divina – esse impulso de vida que vai se tornando humana, cada vez mais complexa em algum momento começa a dar ele mesmo a forma da sua vida.

É essa tal “consciência de si” que nenhum outro animal tem. Essa capacidade de querer para além do instinto que – me parece óbvio, às vezes – nos faz trocar o nomadismo pela agricultura.

Essa nossa crescente capacidade de conhecer o mundo, exatamente isso parece nos conectar a algo maior que o mundo, talvez o que os antigos chamassem de anima mundi. Deus é o passo seguinte.

Enfim, a percepção de Deus em mim funda a ciência – na medida que me dá a segurança de que há a verdade.  As Meditações de Descartes são a descrição dessa “experiência metafísica” – que aliás, pode (guardadas,  claro, certas particularidades) ser repetida como qualquer outra experiência verdadeiramente científica.

O ceticismo em Descartes é parte do método e não crença. O ceticismo só degenera em crença ou em niilismo quando a metafísica é banida.

O ceticismo cartesiano, ressalte-se, volta-se para o próprio homem, o ente singular que exerce seu poder inato de conhecer, mas tende a ver não o que é, mas o que quer.