Fernando Pessoa, infinito e plural

Eu não tenho dúvida que daqui a 50 anos Fernando Pessoa será considerado o maior escritor do século 20 e dos poucos que sobreviverá à passagem para o século 21, que na verdade ainda sequer começou.

Não falo apenas do Pessoa mais conhecido, o Pessoa poeta, especialmente do Pessoa/ Álvaro de Campos, o meu predileto. Falo também e sobretudo do surpreendente Pessoa romancista/ prosador, o Pessoa/ Bernardo Soares, de “O Livro do Desassossego”.

Não é só a forma narrativa que é inovadora e experimental. A novidade de Pessoa aliás está menos na forma, como é o caso de Joyce, e mais no conteúdo. A grande invenção do livro está no “modo de sentir” a que Pessoa dá voz e texto. Essa a grande experiência do livro: ali se está criando a sensibilidade do homem futuro.

Lembro de Harold Bloom falando de Shakespeare como o criador do homem moderno – algo que obviamente não era “visível” aos contemporâneos de Shakespeare e talvez nem às gerações imediatamente seguintes. Foi preciso que esse “homem moderno” se desenvolvesse para então ver-se em Shakespeare como em um espelho.

Da mesma forma, sinto que em “O Livro do Desassossego” há toda uma sensibilidade, uma estética (no sentido amplo do termo) que se desenvolve e que ira germinando sob a luz de sucessivas gerações até que, daqui a 50, 100 anos, uma geração futura de homens se dê conta de estar diante de um espelho, mas cuja imagem antecede em anos, talvez mesmo séculos, o sujeito que nele se reflete.

Escrevo a propósito do trecho que vai a seguir, mas não exclusivamente. “O Livro do Desassossego” é todo ele surpreendente, seja pelo brilho, seja pela opacidade.

* * *

[113]

Dois, três dias de semelhança de princípio de amor…

 

Tudo isto vale para o esteta pelas sensações que lhe causa. Avançar seria entrar no domínio onde começa o ciúme, o sofrimento, a excitação.

 

Nesta antecâmara da emoção há toda a suavidade do amor sem a sua profundeza – um gozo leve, portanto, aroma vago de desejos; se com isso se perde a grandeza que há na tragédia do amor, repare-se que, para o esteta, as tragédias são coisas interessantes de observar, mas incômodas de sofrer. O próprio cultivo da imaginação é prejudicado pelo da vida.

 

Reina quem não está entre os vulgares.

 

Afinal, isto bem me contentaria se eu conseguisse persuadir-me que esta teoria não é o que é, um complexo barulho que faço aos ouvidos da minha inteligência, quase para ela não perceber que, no fundo, não há senão a minha timidez, a minha incompetência para a vida.

* * *

[120]

Aquela malícia incerta e quase imponderável que alegra qualquer coração humano ante a dor dos outros, e o desconforto alheio, ponho-a eu no exame das minhas próprias dores, levo-a tão longe que nas ocasiões em que me sinto ridículo ou mesquinho, gozo-a como se fosse outro que o estivesse sendo. Por uma estranha e fantástica transformação de sentimentos, acontece que não sinto essa alegria maldosa e humaníssima perante a dor e o ridículo alheio. Sinto perante o rebaixamento dos outros não uma dor, mas um desconforto estético e uma irritação sinuosa. Não é por bondade que isto acontece, mas sim porque quem se torna ridículo não é só para mim que se torna ridículo, mas para os outros também, e irrita-me que alguém esteja sendo ridículo para os outros, dói-me que qualquer animal da espécie humana ria à custa de outro, quando não tem direito de o fazer. De os outros se rirem à minha custa não me importo, porque de mim para fora há um desprezo profícuo e blindado.

 

Mais terrível de que qualquer muro, pus grades altíssimas a demarcar o jardim do meu ser, de modo que, vendo perfeitamente os outros, perfeitissimamente eu os excluo e mantenho outros.

Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida.

Não me submeto ao estado nem aos homens; resisto inertemente. O estado só me pode querer para uma acção qualquer. Não agindo eu, ele nada de mim consegue. Hoje já não se mata, e ele apenas me pode incomodar; se isso acontecer, terei que blindar mais o meu espírito e viver mais longe adentro dos meus sonhos. Mas isso não aconteceu nunca. Nunca me poquentou o estado.

Creio que a sorte soube providenciar.

Eu não tenho dúvida que daqui a 50 anos Fernando Pessoa será considerado o maior escritor do século 20 e dos poucos que sobreviverá à passagem para o século 21, que na verdade ainda sequer começou.

4 Comentários

  1. Só você consegue me fazer entender um pouquinho desse desassossego todo… E eu acho uma delícia dar tratos à bola bem quietinha na minha infinita ignorância.
    Muito Feliz 2010!!! E obrigada pela paciência comigo. Sempre. xD

  2. Disseste-o bem: Bernardo Soares é bem Álvaro de Campos. Ambos, a sua maneira, incomodam e encantam. Gostei do texto & demais ponderações.

  3. Oi, Melissa… O Livro do Desassossego me impressiona. Eu resumiria o projeto numa expressão contraditória: “anônima monumentalidade”. O autor, Bernardo Soares (um dos heterônimos de Pessoa, a meu ver, muito semelhante a Alvaro de Campos), cumpre o destino traçado por Campos em Tabacaria: “Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.” A mim, parece misteriosa essa relação entre “não poder ser nada” (que interdição é essa?) e “ter em mim todos os sonhos”. A auto-anulação o tornaria a humanidade inteira? Anular-se como parte é o caminho de tornar-se o todo?

    De todo modo, nesses dois trechos (tomados quase aleatoriamente ou pq me tocaram especialmente) fica muito clara a complexidade do método: Soares toma a si como ponto de partida para uma reflexão sobre a humanidade e depois retorna a si, “relativizando” sua tese como expressão de suas próprias limitações – à maneira preconizada por Nietzsche, em Crepúsculo dos Ídolos: o limite da verdade é o sujeito, não o “sujeito universal”, mas o ego singular que investiga e pensa. Algo que já está claramente apontado na Quarta Meditação cartesiana. (E aí, veja você, para horror dos “nitchianos”, um ponto de contato relevante aparece entre dois pensadores considerados díspares).

    Esse “método”, momentaneamente perdido na vaga do relativismo imbecilizante que domina a academia e tornou-se consenso, é o que chamei no texto de “sensibilidade do homem futuro”: não é a verdade que é relativa, mas o sujeito que a busca. A verdade em si é infinita, isto é, sempre haverá mais verdade a se descobrir pq o sujeito que investiga é sempre parcial. E se acaso alcance a “verdade total”, é alçado para outro nível, além talvez das palavras, como conclui Wittgenstein no Tratactus (cito em ingçlês pq não encontrei online a versão em português): My propositions serve as elucidations in the following way: “anyone who understands me eventually recognizes them as nonsensical, when he has used them —as steps— to climb up beyond them. (He must, so to speak, throw away the ladder after he has climbed up it.) He must transcend these propositions, and then he will see the world aright.”

    (Cito os três filósofos q me interessaram e de quem li alguma coisa: Descartes, Wittgenstein e Nietzsche. Li de Kant o suficiente para detestá-lo.)

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