Notas sobre filosofia e meditação

Há quase um ano, voltei de mais um curso de meditação Vipassana, segundo a orientação de S.N. Goenka, e fiz uma série de anotações e depois as ordenei tematicamente: filosofia, literatura e pessoal.

A idéia certamente era desenvolver os itens mais tarde, mas agora, relendo, a maioria delas me parece quase “auto-explicativas”.

O diálogo que estabeleço é entre Descartes e Buda, entre a meditação cartesiana, presente nas Meditações Metafísicas, e a meditação budista. Há também referências a Platão e Aristóteles, o que é quase sempre inevitável. Vale lembrar que Buda,  Platão e Aristóteles estão muito próximos temporalmente, uma diferença talvez de 100 anos entre Buda e Aristóteles.  Gostaria muito de ter uma idéia mais exata de como e com que velocidade o conhecimento filosófico se propagava naquela época, mas desconfio que era muito mais veloz do que hoje suspeitamos.

Seguem as notas. A numeração estranha se explica porque primeiro as notas foram escritas numa sequência “bruta” e depois organizadas por temas, como já disse.

6. PERDÃO
O perdão sejo o concedido, sejo o pedido, se espalha por toda existência, do passado até o futuro. O perdão altera o passado e toda a existência de quem o concede e de quem o recebe.
7. A RODA DA EXISTÊNCIA
Cada existência é o centro imaginário para onde convergem todas as outras – passadas e futuras – que acontecem sempre simultâneas umas às outras – porque em Deus tudo é sempre. Eu sou todas as minhas encarnações passadas e futuras ao mesmo tempo agora. Qual o sentido exato disso, no que isso resulta ou resultará me é inteiramente incognicível, incompreensível neste momento.
8. RESPIRAÇÃO
Só a respiração existe. É a realidade última da verdade relativa deste mundo. Só o que há é algo que respira.
9. IMPERMANÊNCIA
Na verdade, significa que tudo se move o tempo todo, em diferentes níveis simultâneos – subatômico, atômico, celular, molecular, orgânico e inorgânico, mental, tudo alimentando tudo num incrível (o quê?) para produzir contiuidade na impermanência, infinitude da finitude.
10. ALGO PERMANECE: a forma. E no caso de organismos mais complexos, a forma singular.
“Que a rosa não se desfaça em borboletas ou da macieira não brotem diamantes, não é mais surpreedente que a rosa, as borboletas a macieira e os diamantes”.
11. O COGITO não é um ente, mas um estado mental. Isso é óbvio, mas o termo “Cogito” pode induzir facilmente ao erro. Definir esse estado mental, suas características, o percurso que se faz até ele e as consequências que dele se extrai é algo a se fazer.
12. Todo tempo estamos diante do INFINITO e o contornamos com nossas “descrições parciais” da realidade. Impossível dar conta do infinito: o simultâneo não pode se reduzir à linguagem, sucessiva por natureza.
21. IMPERMANÊNCIA = FINITUDE
A idéia do surgir e desaparecer implica em duração e, portanto, em ser e substância.
Se a “realidade última” é um surgir e desaparecer simultâneos, logo “criar e conservar são o mesmo”?
“Realidade última” = pura forma? Nem vazio nem cheio, como numa piscina de água corrente…
27. ATENÇÃO sem intencionalidade = meditação!
35. O EU é uma escada para “anata” (não-eu).
A natureza inteira (dhamma) é anata sem consciência de ser anata. Puro anata. A Natureza apenas é.
‘Sou o que sou”: autoconsciência de não ser nada além de o Um.
42. NO MUNDO, TUDO É VIDA. Tudo está impregnado de Vida. Vibração e memória. O Mundo é o plano do finito e singular ao mesmo tempo, do finito como condição do singular. Finito como singularidade, infinito como forma. Platão?
43. Finitude, qualidade do que é finito.
Camadas e mais camadas de impermanência. Mas a forma persiste.
44. Impermanência não é sofrimento, mas vida.
47. Quem medita sabe q as horas não são iguais.
48. Dhamma = Natureza = Ser = Vida = Deus: Deus sive Natura!
O dhamma do Dhamma, a natureza da Natureza, é a impermanência, a finitude. Logo a aceitação da natureza é parte da vida: luta-se pela vida, mas aceita-se a morte: que vença o melhor. Lei do mais forte.
Tudo parece se organizar em circuito de tal modo que TUDO TEM SEU LUGAR. Tudo tem seu lugar e momento: Aristóteles?
Aristóteles concordaria com a idéia de que todo objeto mental, mesmo a simples visão de algo, tem seu correlato no corpo, uma sensação? “Nada há nos sentidos que não tenha antes passado pela mente”, poderia se dizer parafraseando Aristóteles: “Nada há na mente que não tenha antes passado pelos sentidos”.
Tire-se a palavra “antes” e a coisa complica e as duas frase quase se equivalem.
Descartes por sua vez tb concordaria. E toda a fenomenologia.
Por outro lado, como tudo é sensação VOCE SENTE COM O CORPO TODO TODO TEMPO. Mas quem sente é a mente.
A Vida é o espelho de Deus. O Homem é o espelho da Vida.
55. Descartes diria: o dhamma do homem é pensar.