À beira-mar

Havia um cego na praia.

De principio, não achei que fosse, parecia apenas alguem prazeirosamente tomando sol de olhos fechados .

Talvez porque  não os abrisse quando me aproximei para pedir para deixar minhas coisas na barraca deles, ou porque  ele pareceu voltar as orelhas para mim (ouvendo), sem alterar aquela expressão maravilhada,  só então eu percebi: ele era cego e se maravilhava diante do mar e o sol nascente.

Se maravilhava de um modo que eu não saberia dizer?

Eu imagino que para o cego o mar é um animal imenso, um animal que é só tato e que tanto vem lhe lamber os pés, efervescente, quanto ruge feroz,  animal imenso, doce e rude, ao mesmo tempo.

Eu imagino que o cego saiba que tocar o mar numa praia é tocar imediatamente o oceano inteiro.

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Caminhando na praia subito o passo se acertou com o mar e o vento e eu mais leve que uma sombra me dissolvi na paisagem. Pela prmeira vez senti a verdadeira humildade que é não desejar ser visto e não provocar mais ruído que um risco na água.

(Eu quase não era eu, eu estava na paisagem e pela primeira vez eu era lento sem ser devagar, suave sem ser fraco. Um sensação e tanto!)

Parei e fiquei olhando as fragatas manobrando no ar à espera das melhores correntes para atravessar o mar até às ilhas, seu voo estudado contrastando com os bandos de biguás que passavam como rabiolas de pipa soltas no vento, desenhando no céu uma caligrafia fugaz que só talvez um músico ou cabalista soubesse ler.

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Jogando capoeira com o mar: deixar-se ir, resistir, mergulhar. (clique para ver e ouvir)

Na beira do mar, por Mestre Boca Rica e Bigodinho., do cd “Capoeira Angola”