“Onde tu estás?”

“Avec chaque homme vient au monde quelque cose de nouveau qui n’a pas encore existé quelque chose d’initial e unique. (…) C’est avant tout cette qualité unique e exceptionelle que chacun est commis à developper et a mettre en oeuvre, mais non de faure encore une fois ce qu’un autre – et fût-il le plus grand – a déjà réalisé.”

Minha questão do momento é “Onde?”.

Comecei por “onde está Deus no Mundo?”, a partir de um improviso sobre um texto político de Olavo de Carvalho. Em seguida me veio a mão o trecho de Halevi sobre a Cabala que citei e agora este, de um opúsculo de Martin Buber, “Le Chemin de l’homme”, que achei por acaso no sebo.

O livrinho (Vejam só!) começa exatamente com Buber citando um rabino que explica o sentido da interrogação de Deus (aparentemente contraditória em se tratando de um Deus onisciente) a Adão, que acabara de provar o fruto proibido e agora se escondia de Deus: “Onde tu estás?”, pergunta Deus.

A explicação do rabino é supreendente, porque simplesmente ignora a querela menor sobre a aparente contradição e, partindo da fé em que “L’Ecriture soit éternelle e qu’elle embrasse tous le temps, toutes les generation et tous les individus”, conclui que Deus se dirige a cada homem: “Où es-tu dans ton monde?” (“Onde estás no teu mundo?”).

Acho legítimo imaginar que esse enfático “teu mundo” se refere a absoluta singularidade que é afirmada na citação que abre o post e de que Buber extrai conclusões de uma beleza encantadora.

“Tous les hommes ont accès à Dieu, mais chacun a un accès différent. (…) L’universalité de Dieu réside dans l’infinité des voies (vias) qui conduisent à lui et dont chacune est reservée à un homme”.

É lindo… Outro dia, escrevi que a solidão é a marca da divindade em nós. Trazemos dentro de nós a solidão de Deus – que é exatamente essa singularidade absoluta, imagino.

Eu tenho dito que o Deus que imagino pode muito bem surpreender-se com sua criação – vale dizer, consigo mesmo. Imagino que a emergência da Consciência em Adão (que é a Vida) tenha sido para Deus uma surpresa. Uma grata surpresa. Porque se a Vida é para Deus espelho, a Consciência é para Deus diálogo? (Sim, isto é uma pergunta, não uma afirmação).

Nesse caso, a interrogação divina à Adão (“Onde tu estás?”), teria também o sentido de inaugurar um diálogo? Um diálogo com a Consciência, Um diálogo com Palavras?